Wednesday, November 15, 2006

Sobre os momentos mágicos

O Mercado do Bolhão, assim como outros mercados públicos, mostra claros sinais de decadência. Poucos clientes, pouca variedade de podutos, reformas mal começadas e mal acabadas, pombos, silêncio. Tudo programa minha cabeça para que eu acredite que aquele é um local condenado, que quase não mais respira, vivendo com a ajuda de alguns turistas que por ali passam, mas que logo saem à medida em que falta o que fazer, ver e olhar. Estranhas vibrações passam pelo meu corpo, o cheiro de flores sendo vendidas, vendidas não, cuidadas, viradas, regadas e acariciadas por mãos de senhoras idosas que fazem de tudo com as margaridas, gérberos e rosas só pra passar o tempo, lembrando da época em que éramos galantes e comprávamos flores para quem amávamos. Parece que o cheiro hoje só me traz a idéia do funeral que aquele mercado abraiga e do qual é o próprio velado. O defunto está silencioso e suas víuvas fazem de tudo para que os coveiros não sintam o cheiro de quem já passou da hora de ser enterrado. Elas não choram, apenas murmuram aos passantes um pouco de caridade para o morto, que lhe compremos uma flor. O coração do mercado está parado, marcado por uma fonte que não mais jorra a água límpida de tempos em que éramos inocentes, que nos encantávamos com o som da água caindo na fonte, com os pássaros que lá bebiam e se banhavam. Hoje só conseguimos amaldiçoar os pombos, não há mais tempo para apreciar qualquer coisa. E foi aí que o tempo parou. Parou mesmo, tal qual quando apertamos o pause no vídeo ou no videogame. Uma criança, que ainda aprendia a andar brincava ao redor da fonte, enquanto algumas garotas tentavam com que ele fizesse alguma pose para uma fotografia, mas parece que a pose tinha que ser bem específica, presumo eu. Uma das garotas chamava a atenção do míudo, que corria em sua direção com seu brinquedo à mão. O modelo não correspondia às expectativas das fotógrafas. O menino corre mais uma vez em direção à garota. Seu brinquedo cai ao chão. Sorrindo, ele abaixa-se para pegá-lo. Sorrindo, ele caiu de bunda no chão. Sorrindo, ele pega seu brinquedo e faz algo que é bem mais que um sorriso, a boca inteira aberta, os olhos apertados. Sorrindo, ele se levanta e segue andando. A foto não foi tirada, não se ouviu o clic. Não era a pose esperada. O momento mágico estava perdido. Foi aí que o tempo voltou a andar de novo e o Mercado do Bolhão envelheceu ainda mais.

Ouvindo: Pixinguinha - Três Estrelinhas

6 comments:

Anonymous said...

Muito bonito. Posso ler nas entrelinhas? Tanto tempo e não conheci o tal mercado. Fica pra próxima.

cambio

Anonymous said...

gostaria de ter compartilhado dessa visao... e olha que eu tava a apenas uns passos de distancia... q coisa mais bizarra!

Bigode said...

Pode ler nas entrelinhas, pelo visto já deve terlido, não?
Mas não me conte sobre a "análise" feita, ok?

Li said...

Muito bem escrito, gostei!

Pq as pessoas preferem poses a espontaneidade?

Anonymous said...

saudosista hein??? sai fora, coisa de veio!!!

ontem eu tive a pira de comecar a fotografar cemiterios nas cidades onde eu passar. que acha? boa?

vou comecar meu blog hj. vamo ve o qeu sai.

abraco jovem!

doiog

Bigode said...

Coisa de véio é o caraio, Deogo...
E passa logo o endereço do seu blog aí...
Abraço!