Saturday, October 07, 2006

Cadê o Snaip?

Era a melhor época de minha vida. Meados do 3º colegial, estudando em escola de patrão, mas pagando mensalidade de empregado, encontrei em minha sala vários exemplares como eu naquela sala. Era a primeira vez que assistíamos aula em um auditório e, em alguns meses, esses semelhantes ocupavam a parede do fundo da sala, todos um ao lado do outro, bem encostadinhos e sempre dispostos a fazer qualquer coisa que não tivesse relação com as aulas: eu, Vitti, Kiko, Fazenda, Henri, Natália, Isabela e mais duas gostosas que eu não me lembro o nome. Era a Turma do Paredão. Certa vez o professor disse que apostava quanto dinheiro quiséssemos que nehum de nós passaria no vestibular. Sorte dele que logo voltou atrás.

Mas o assunto não era esse. Uma das coisas que mais nos agradava nessa época era o Inferninho, bar sujo do centro de Ribeirão Preto, frequentado por prostitutas, bêbados, desocupados, fracassados em geral e nós. Além do Vitti e do Henri, sempre juntavam-se ao grupo os meninos da sala ao lado: Rato e Doença. E foi numa dessas tardes perdidas que...

-Cadê o Snaip?
Um homem alto, magro, mas bem magro mesmo. Coisa de um metro e noventa e uns 70 quilos. Bermudão da Conduta, que ele sempre insistia em lembrar, dizendo que bermudão da Conduta era sua veste predileta. Suas pernas finas deizavam aparecer suas veias, todas saltadas. Reparando bem, todas suas veias pareciam saltadas, dos braços, das pernas. No rosto, acompanhando o contorno da boca, uma cicatriz profunda, chegando quase à altura dos olhos. No antebraço, uma tatuagem verde-cadeia denunciava a procedência de nosso futuro adversário.

-Não sei...

Respondemos todos baixinho, enquanto o homem fazia malabarismos com o taco de sinuca. Sempre repetia a pergunta: Cadê o Snaip? E ninguém sabia do que se tratava até que, de repente, não mais que de repente, adentrou ao salão de sinuca um preto baixo, mais forte que o amigo, com um bermudão parecido com o de nosso interrogador e futuro adversário. Nessa hora, todos riam com o canto da boca ao perceber quem era o Snaip e fazer a ligação com Wesley Snipes. Estava tudo explicado. Logo que Snaip chegou, seu amigo propôs o desafio:

-Vamo jogá valendo a ficha!

Nenhum de nós tinha bolas suficientes no saco pra dizer não praqueles dois tipos. Quando lembro da cara deles penso no desperdício de dinheiro que Hector Babenco cometeu na escolha de figurantes para o filme. Com certeza aquela dupla convenceria o Brasil e o mundo em qualquer papel de Carandiru. Timidamente, dissemos sim e o único pensamento que ocupava minha cabeça e, julgo que, também, a de Vitti era "Fodeu".

A partida começou com aquela coisa típica de quem não sabe jogar sinuca, passa um giz na ponta do taco, anda em volta da mesa sem fixar o olhar em nenhuma bola ou caçapa específica, mas tudo sempre com aquele olhar grave de quem sabe o que está fazendo. O companheiro de Snaip, o qual nunca soube e nem quero saber o nome, começou apavorando no jogo, matando bolas de tudo quanto é jeito e parecia que a gente estava fadadao à derrota. Quietos, quase mudos, fazíamos nossas jogadas simples, sempre colocando algumas bolas no caminho, até que empatamos o jogo: uma bola pra cada um na mesa. Depois de várias jogadas sem muito efeito, conseguimos deixar nossa última bola bem na beira do abismo, esperando qualquer assopro pra ir morrer na gaveta. A bola 15, separada do jogo, aguardava a hora de entrar na mesa pra decidir o vencedor. Na vez de Snaip, ele demonstra toda sua técnica e encaçapa a última bola. Ainda estávamos no jogo, dois moleques prestes a talvez derrotar uma dupla recém saída da cadeia. E eles ainda iam ter que pagar pela ficha. Era a hora da bola quinze. Eles certamente não iriam matá-la de primeira, daí ficava tudo empatado de novo. Era a hora da 15. Pela primeira vez durante toda a partida, emitimos nosso primeiro som. Isso, um som, pois não dá pra chamar aquilo de fala. Juntos, como se fosse combinado, eu e Vitti dissemos:

-A 15...

O amigo de Snaip pegou a bola 15 que estava lá esperando. Segurava-a com força, parecia ter raiva dela ou coisa assim. Rapidamente abaixou o braço com violência, de uma vez só, e enfiou com força a bola na caçapa do meio...

-Aqui não tem 15 não, mano!

E com essa fala, o homem magro, alto, de pernas finas e veias saltadas, me deu uma das melhores lições que eu ja aprendi nos meus tempos de escola.

Ouvindo: Portugal X Azerbaijão, na TV que tá lá longe

3 comments:

Marcelo said...

vai escrever bem assim em mesa de plastico de buteco!

espero que portugal esteja te dando todas as experiencias fodas que voce foi buscar.

abraçao!!
se cuida!

Anonymous said...

Vida de maloquero é assim mermo!...
É por isso que deu no que deu...rs...
Abração, frito!

worm said...

huahauhaau...

acho que todo moleque já se fodeu alguma vez ao querer entrar nestes antros de perdição....

sempre traumático.