Thursday, January 19, 2012

Pessoas são eternas; ja os diamantes...

Julião Pestana acorda, como todos os dias ha muito tempo, às 6h da manhã em sua cama de solteiro. Não se lembra ha quanto tempo chegou a um acordo com Dona Aparecida para que cada um dormisse tranquilo em seu canto. Veste-se como ha muito tempo: calças sociais, tenis de corrida - aqui cabe um parenteses, sao os tenis mais modernos e baratos que se podem encontrar no mercado francano. Toma certo tempo para passar a cinta em volta da barriga para dar mais sustentaçao à hernia que acompanha-lhe ha um tempo que nao conta mais. Veste a camisa. Falta um dia para completar seus 90 anos.

Nunca soube ao certo a idade de meus avos. Quando criança, Juliao sempre dizia ter "mais de 200 anos", o que rendia risos e descrença na cara dos netos. Agora sei que ele é normal, tem apenas 90 anos - o que se pode notar pelo tamanho de suas sobrancelhas e pela sabedoria de seus conselhos. Tudo o que sei sobre mulheres (e o amor, consquentemente), foi Juliao quem me ensinou. Ensinou tudo que eu sei sobre pipas, fazer a cola na panela,  cola que ele chamava grude. Ensinou-me que as duras mais severas fazem parte de amar. Ensinou-me que a distancia é algo pouco importante quando se ama alguém, pode-se cultivar e cativar pessoas com uma simples palavra, mesmo que anos e muitos quilometros as separem.


Por que perco-me em essas lembranças? Quantos anos tinha a vo Bianda quando ela resolveu deixar essa terra? Nao sei, perco-me simplesmente em lembranças, as quais invento e adiciono detalhes, apago desgotos e apego-me aos sentimentos que meus avos fizeram brotar. Se hoje gosto de cozinha é tudo culpa da Dona Sebastiana, que topava qualquer parada e resolvia tudo com suas panelas e seu jeito despachado de receber e servir. Se hoje tenho esse jeito besta de rir de quase tudo e de sorrir ao ponto de parecer imbecil, devo a vo Picida e ao seu jeito unico de cobrir a boca enquanto ri timidamente depois de qualquer gracejo.


Pessoas vivem pra sempre, não importa o que aconteça. Vivem dentro de mim. Mesmo os amigos mais distantes, mesmo quando seus rostos, vozes e cheiros são fugidios em minha memoria, guardo a esssencia, o sentimento, alguma palavra, o ultimo sorriso, o ultimo abraço que tive: fazem parte, sao o que sou. Mesmo que tenham mais de 200 anos. 

Juliao toma seu café pausadamente, café forte e doce de receita marcada na leiteira pela força do uso. Bota seu aparelho auditivo e caminha calmamente em direção à sala de estar para buscar seu jornal. Amanhã é seu aniversario. O mais estranho é que ainda faltam muitos anos para que meu avo chegue à idade em que o conheci. Duvido muito que ele chegue aos 220 anos, mas, dentro de mim, vive a eternidade. Julião nunca tocou um diamante.

Ouvindo: Noir Désir - Le Vent Nous Portera

Friday, October 21, 2011

Lembranças que eu tenho de lá

Te echo de menos, le digo al aire,
te busco, te pienso, te siento
diciendo que como tú no habrá nadie.
Y aquí te espero, con mi cajita de la vida,
cansada, a oscuras, con miedo
y este frío nadie me lo quita. 

(Bebe - Razones)


O plano é partir para Franca amanhã, logo pela manhã. A cidade ondei deixei para trás as primeiras caixinhas de vida. Lembranças, mesmo que muito vagas, ainda me comovem: o sotaque, o jeito inconfundível de dizer 'tií e fií' no lugar de tio e filho, a visão da mufa épica de Papa Tony's - o lugar onde comi meu primeiro dogão. Caio, Roberto, Roberta, Jonas, Douglas, Rogério, Tatiana, Mariana - aquela pra quem mandei as mais desesperadas e, literalmente, infantis cartas de amor - Pâmela, Vinícius, Ana Paula. Hoje escrevo seus nomes em um blog à medida em que me vêm à mente. Mas são só nomes que tenho na cabeça. Não há mais a lembrança de fato, tampouco o desejo de revê-los.


Rodrigo, tá aí um cara que me ensinou a rir da vida e de mim mesmo. Ria do rangido infernal que o FIAT 147 de meu pai fazia quando freava a fundo. Ria alto, zoava e fazia todos rirem. Filho de negociantes - seria um mercado que Dona Regina chefiava? Não sei, lembro mais dele chegando na pracinha e mandando, em alto e bom som, enquanto olhava pra mim: 'tã nã nã nã nã nã nã nã nã nã... Johhhhn Cabeeeeça'. Mesmo sendo endereçada a mim, era tão engraçado que eu mesmo ria do tosco apelido.


Outros apelidos vieram: Cabeção, Formiga do Planalto - o bairro francano, onde aparecem formigas que fazem deus questionar sua habilidade. Chernobil, da primeira vez que raspei a cabeça. Desse, não consegui rir. E outros mais vexatórios apareceram, mas sempre dei meu jeito de rir junto com o pessoal. Desde o tempo em que era o Ferruginha, em outra pracinha. Sempre apareciam os apelidos, principalmente na pracinha Santo Antônio, na Cidade Nova. E o mestre das alcunhas atendia pelo melhor vulgo da época: GT.


GT era o proto-marginal, daqueles que dão pinta desde adolescente de que não estão nesse mundo para contentar-se com regras. De família amalucada - um de seus parentes chamava-se Billy e sua irmã era a Cléa, conhecida por lá como Créia (era como a trissomia do 21 a incentivava a dizer seu nome). E muito aprendi com GT, como me virar na rua, como entrar nos lugares mesmo não sendo bem vindo e, o mais útil de todos - como saltar moitas enormes daqueles espinhos que o povo chama de 'coroa de cristo'. Na verdade, nunca fui muito bom nessas coisas de pular. Nem moita, nem muro. Por onde andaria Fabício, o GT?


Nessas andanças por ali, fiz uma dívida eterna com o meu melhor amigo, vizinho de frente da vó. Bocão, conhecido pela família como Diego, tinha a boca em que cabiam, contadinhas, 6 bolachas Maria. Gente boa até o último, tirando o fato de ele gostar de molhar o pão no café, que tomava de canecadas. Um dia, em meio às nossas reflexões pelas ruas da vizinhança, prometi inocente: 'ó, Bocão, um dia eu vou te dar um carro, vai ser um Opala'. Sempre que me lembro - esse é um dos quais o rosto de criança me vêm à mente - penso em saldar minha dívida. Foda vai ser achar um Opala, bege, igualzinho ao de seu tio Zeti. O Zeti tinha marca de bala e de facada na barriga, inchada de cachaça.


E a Edinéia? (nesse ponto, você leitor já deve estar cansado de rir de tantos nomes e apelidos, pois não?) A Edinéia era irmã do Érmisso, que fora batizado Emerson, filho do tiozinho que era lixeiro e que morava nos fundos da casa do bocão. Foi com a Edinéia que fui atrás de um Fusca bege, estacionado em frente à casa da vó e lasquei-lhe um beijo. Beijinho, curtinho, estralado, mas, que importa se tão furtivo? Foi o primeiro. 


Por onde anda essa gente? Ainda tenho parentes na cidade, mais de vinte, aliás. Um dia, depois de muitos anos sem aparecer por lá, fui ao mercado e queria comprar presunto, queijo e afins. Fui atendido por um jovem bastante cortês, de olhos azuis claros bastante familiares. Um reencontro dividido por um balcão resfriado, lá estava Douglas, o Tuca-Tuca, vizinho de muro da rua de baixo - eu morava num corte no morro com vista pra boa parte da cidade. 'André, você, quanto tempo, que tal, tudo bem, bem e você, faz tempo, né, e aí, como tá a família - a irmã dele salvou-me do meu primeiro desmaio, quando caí da goiabeira de sua casa e seu rosto de anjo salvador olhado de baixo pra cima ainda tá guardado em uma caixinha. 'Então é só isso, obrigado, obrigado a você, um dia a gente se fala, um abraço, pra tua mãe também'. 


Por onde anda Diego, o Bocão? Dias atrás, minha tia encontrou-o na rua, moleque crescido, sujeito homem, se virando com seu irmão de criação depois que a Gracinha morreu. Gracinha era a mãe do melhor amigo, carinhosa pra caralho, criou o Bocão sozinha e ainda pôs o Bruno embaixo da asa quando a Mariley morreu. Preciso apressar-me para achar um Opala, juntar um troco e saldar minha dívida. Pagaria o mundo para poder ver seu rosto agora, aquela boca onde hoje devem caber mais de uma dúzia de bolachas. Se não levar o Opala, ao menos recupero mais essa caixinha de minha vida que está perdida por aí. E refaço minha promessa, a qual um dia vou cumprir: um Opala bem bonito. Ferruginha e Bocão dando um rolê na Avenida.  Já pensou?


Ouvindo: Iron Maiden - The Sign of the Cross

Thursday, October 06, 2011

O sótão e suas lembranças

A primeira coisa que deve-se pensar quando de uma mudança: caso haja um sótão na casa, uma corda é necessária. Imprescindível, na verdade. Assim como abrir as janelas do sótão horas antes de ocupá-lo com a missão de retirar dali tudo o que não seja uma bagunça eterna; tipo de coisa que ali permanece até que a casa seja um monte de entulhos.

Nunca imaginei morar em uma casa com sótão. Qual seria a serventia de tal cômodo? É certo que não cheguei a morar ali, dormir todos os dias, pagar umas contas e tudo mais que faz com que você seja morador, não visita. Mas descobri que, dentre as utilidades de um sótão podemos citar: guardar caixas d'água e restos de construção - aqui queria entender por que tem-se dó de jogar todas as sobras na caçamba ou mesmo doá-las para quem daria mais serventia ao material.

Serve também para ser um local quente em dias de calor e gelado em dias frios. Caso o morador aprecie extremos, tá ali um cômodo aconchegante. E a principal função: estocar de maneira quase definitiva aquilo que você nunca mais vai usar. Exames médicos, diplomas da pré-escola, cadernos velhos, tudo cabe em um sótão quente e espaçoso.

Por serem as ideias fugidias, assim que pensares na corda - extremamente necessária para o caso de mudança em uma casa com sótão - lembra-te de pegá-la: a corda será a tua salvação. Com a corda em mãos, subo a escada estreita, daquelas de filme, que se escondem no teto e devem ser puxadas com uma elegante corrente. Na falta de uma corrente, improvisa-se bem com uma pá de pegar cinzas. Quente. Por que não ter aberto as janelas antes? Enquanto penso, o suor escorre pelo rosto. Era dia de fazer a barba. Sem tempo, ela só ajuda a aumentar a sensação de lugar mais quente do mundo.

Após breve análise, temos um diagnóstico: são 6 caixas grandes de papelão e a maior parte delas era caixa só no nome, não mais apropriadas para carregar qualquer coisa. Entre livros, radiografias, eletrocardiogramas, cadernos, enfeites de natal, correspondências, lembranças, livros - de todos os tipos, diga-se, desde a Teoria do Basketball ao Código da Vinci - encontro muitas traças, que saem apressadas e sem saber pra onde ir quando veem luz depois de tanto tempo.

As coisas ali não tem mais dono. São da casa. São do sótão, na verdade. Os moradores já retiraram todas as suas coisas de dentro da casa. Pelo menos é assim em suas cabeças. Suor constante, que, de tão constante, não me incomoda mais quando escorre pelo rosto. A corda. Ainda bem que eu achei essa corda, viu? Quando criança sempre gostei de nós, dos quadros com todos os tipos de nós do mundo, mas nunca consegui reproduzir nada além do nó cego. É hora de aprender, na marra mesmo. Enrola daqui, aperta de lá, tudo muito seguro.

Ajuda aí embaixo! Pronto. Devolve a corda. Olha esse caderno, olha esse álbum de fotografias. Vejo coisas que tem valor pra mim no meio da bagunça toda. Roubo do sótão alguns de seus tesouros. São meus novamente, alimentarei as minhas próprias traças com eles, ocuparei outros sótãos e caixas velhas. A sacola - outra ferramenta essencial em uma mudança é uma sacola resistente com boas alças - sobe de volta ao sótão. Quem diabos guarda um raio X de 1998? Tem coisas que só quem tem um sótão em casa sabe explicar.

Ouvindo: AC/DC - Shake a Leg

Thursday, August 11, 2011

O desfalcado

-  E aí, Rick, bora jogar bola?
- Pô, o Rick pode ir hoje não, tá desfalcado...
- Como assim? Tá doente? Que aconteceu com ele?
- Tá desfalcado hoje, vai dar pra ele ir jogar bola não...
- Pô, mas ele tá aí? Tá machucado?
- Vai dar pra ele hoje não. Mas somos de boa, a gente é do bem. A gente vai devolver tudo as coisas pra ele... Avisa isso pro Rick quando cê conseguir falar com ele, firmeza?

Difícil falar com assaltantes ao telefone, ainda mas quando finge-se não saber de nada.

Tu-tu-tu-tu.... Desliga o telefone. Voltemos 15 minutos na cena. Toca a campainha. De bermuda, meião erguido e tênis de jogar bola, espera Rick na sala de casa. Cadê a chave? Deve estar lá em cima. "Peraí, Rick, tô indo". Sobe a escadaria, nada de chave. Confere o bolso do casaco, tá lá. Desce de novo, apressado, rumo à porta. Faz menção de abrir, mas ouve a voz de Rick e concentra-se no diálogo:

- Seguinte, mano, dá tudo aí. Dá o celular. Dá a carteira.

- Cadê o carro, mano?

São dois. Calmos. Imagina-os discretos, de jaqueta sintética e tênis de corrida. Imagina porque não pode vê-los, o portão de madeira só permite que o assalto fosse testemunhado de ouvido. A tensão aumenta. Abrir a porta? Gritar? Pegar o pedaço de pau ao alcance da mão esquerda e ver o que o espera lá fora? Gritar? Correr? Chamar o Rick, como quem não quer nada? Aí os caras entram em casa... Dão um tiro no Rick. Dão um tiro em mim. Ou saem correndo, assutados. Bora pegar esse pau e por esses maluco pra correr... Todos os pensamentos passam por sua cabeça em exatos 15 segundo, tempo para o diálogo que ouve à porta de casa.

- Cadê o dinheiro, mano?
- Tem nada não, só os documentos, tá aí, ó.
- E o carro, cadê o carro?
- Ta aí a chave.
- Ô chega aí no carro com nós então, chega, chega.

São as últimas palavras que ouve. Levaram Rick pra um passeio, essa certeza tomava conta de sua cabeça. O silêncio dá mais peso às pernas, que tremem discretamente. Suas pernas sempre tremem em situações extremas. Telefone. Polícia. 190 ao seu dispor. Mas você está vendo ou ouvindo? Ouvindo (que diferença faz?). Tudo bem, vamos mandar averiguar. 40 minutos depois chega a viatura, um cabo desce olhando-o com olhinhos de me come. Foda-se. Devia ter ido até a pizzaria ver se juntava uma turma de PMs na pilha de uma sobremesa. Telefone toca. Rick: cara, tô bem. Saí correndo. É, foi quando o cara da arma foi pro carro, vazei. Pois é, nem pensei em nada na hora. Só vazei. 


Sorte.

Ouvindo: Leo Canhoto e Robertinho - O Homem Mau

Thursday, August 04, 2011

A verdadeira história de Jesus de Nazaré - parte 2

Pouco depois de performar seus primeiros milagres - a transubstanciação e a multiplicação dos peixes - Jesus de Nazaré sentiu-se, pela primeira vez em sua vida, um cara verdadeiramente especial. Com a força de seu pensamento julgava poder fazer tudo o que imaginasse.

"E se eu tranformasse esse deserto em rio? Meter umas sombras, árvores com frutas e os caraio", pensa sozinho enquanto seus seguidores fazem sua função: andar atrás de Jesus arrastando suas túnicas em farrapos e aguardando as próximas mágicas que sairiam da cartola do nazareno. Como das primeiras vezes, bastou pensar e o milagre estava feito: sombra, árvores, frutas, bichos fofinhos e muita água corrente cercavam seu caminho.

E a vida de Jesus foi seguindo. Muito além dos 33 anos que sua biografia retratou, aliás. A cada dia que passava, Jê ficava mais orgulhoso de seus milagres. E a soberba não demorou brotar em seu coração.

- E aí, Jesus, firmeza, irmão? Sabe qualé, tava bem afim de arrumar uma namorada, jantar com ela e tal, sabe como é né?

- Pô, Iscariotes, você pede demais. E eu não sei como é porra nenhuma - apesar de todos seus poderes, Jesus nunca tinha experimentado da costela de Adão.

- Não rola mesmo, Jê? Quebra essa aí, vai?

- Toma logo, então, caralho!

Um harém coberto por uma tenda, decorado com as mais nobres sedas e louças e habitado por 11 virgens à espera de Iscariotes, brotou no meio do caminho.

- Aê, Jesus, cê é o cara mesmo, hein? Judas agradece e logo dá as costas ao mestre, erguendo a túnica enquanto corria para dentro da tenda.

- Fodam-se vocês. Vocês que se virem com esse pedição do diabo. Eu tô de boa, vou seguir meu caminho sozinho.

E assim foi. Deu as costas aos seus 13 asseclas e saiu perambulando sozinho por aí. Logo aborreceu-se com a solidão e passou a falar sozinhos, com os animais e mesmo com as pedras. Um coelho que passava ao seu lado ficou curioso enquanto Jesus falava com uma família de galinhas:

- Aê, Barba, tá doidão, rapaz? Falando com galinha?
- E você, branquelo, quer o que?
- Nada não, mano. Só que galinha é meio besta, ruim de ideia, né?
- Tô vendo. Já você é bem malandrão, né?
- Que é isso. Sou só um coelho qualquer falando com um tiozão cabeludo.
- Quer bater uma aposta comigo, coelhinho?
- Pô, até que é umas, né?
- Tá vendo aqueles ovos ali?
- Tô sim, que que tem os ovos?
- Tranformo essa porra toda em chocolate, duvida?
- Hahahahahahaha - o coelho se perde numa risada infinita.
- Tá rindo de que, otário? Transformo esses e todos os ovos que estão na face da Terra em chocolate, duvida?
- Duvido. Duvido pra caralho.
- Tá apostado?
- Tá sim, pode botar fé - o coelho responde confiante.
- Então toma, mané!

As galinhas saem de cima de seus ovos, esvoaçando com todas as suas forças. Não reconhecem seus ovos, agora pretos e grandes (todos os ovos foram tranformados em chocolate ao leite, nº 16). Fogem desesperadas, o que combina com o olhar embasbacado do coelho.

- Porra, como você fez isso, cara?
- Te interessa? Perdeu a aposta, imbecil. Agora você vai pagar.
- Pode crer. Como eu faço?
- Vai entregar ovo por ovo na casa da criançada. E vai fazer isso todos os anos, lá pelo fim de março, começo de abril. Quando você acabar de entregar tudo, me procura que eu te descolo mais ovos.
- Puta, me fodi.
- Pois é, coelho. Quis ser malandro, não quis? E ó: tô de olho no teu trampo, hein?

Saindo dali, Jesus avista um senhor gordo e barbudo, todo grisalho, vestindo uma estranha combinação vermelha e botas de couro. Não hesita em propor:

- Aê gordo, cola aí. Tá afim de uma aposta?

Ouvindo: Zebda - Motivés

Tuesday, August 02, 2011

Conto do vigário

-Olha, olha, minha gente, mas tem que ter o olho vivo! Quem quer jogar?

O homem veste roupas normais, além de ter uma cara normal. Salvo pelo olhar. É um olhar doce e convidativo, de quem tem certeza do que está fazendo. Tem uma banquinha de madeira leve, coberta por um pano roxo. Três copinhos e uma minúscula bolinha de madeira complementam seu ambiente de trabalho.

-Eu quero!

A velhota usa roupas sóbrias, tem os cabelos bem cortados e tingidos e um par de óculos cor de âmbar. Seu olhar é inocente e também muito convidativo.

-Então fica atenta, minha senhora, que o jogo vai começar. Atenção, atenção, não tire os olhos da bolinha.

Mexe que mexe e troca e troca os copinhos de lugar, numa velocidade incrível. Mesmo assim, para os mais vivos, a bolinha nunca some do lugar.

-Olha lá, vai parar, sabe onde tá a bolinha? Atenção, só mais um pouquinho, pronto.

Levanta as mãos e a cabeça, agora olha em silêncio para a velha. Seu olhar é desafiador. Permanece calado.

-Na do meio!

A velha responde, mal contendo a empolgação de ganhar 50 contos assim, tão fácil. Tinha certeza absoluta: ganhara.

-Vamos lá, vamos ver... É isso mesmo! Bravo!

A velha comemora em silêncio, com um sorriso que deixa mais da metade de sua dentadura à mostra. Pega o dinheiro, guarda em sua carteira e permanece ali, ao lado da banca.

-Quem mais, quem quer jogar? Tão vendo como é fácil? Eu tô ficando velho, não consigo mexer com tanta velocidade. Quem joga comigo, vamos lá? Mas tem que ficar de olho na bolinha!

-Eu!

O passante tem cara de quem não é dali e tem o olhar confiante dos espertos. Passou os últimos 15 minutos observando o jogo e tinha certeza que seus olhos eram mais rápidos que a mão do mestre do jogo. Aposta 50 contos, assim como a velhinha.

-Então olho vivo, meu rapaz. Não tire os olhos da bolinha. Vamos lá!

Mexe, troca, gira. E fala sem parar.

-Atenção, vai parar. Tá de olho? Vou parar, olha lá, só mais um pouco, atenção...

Levanta o olhar desafiante em direção ao apostador e espera em silêncio.

-Tá na esquerda.

-Essa esquerda aqui?

-Essa mesmo.

O apostador fala convicto. Certeza de ter batido as mãos do banqueiro com a sagacidade de seu olhar. Levanta-se o copo. Não há bolinha. O homem vira-se e caminha cabisbaixo, imaginando que, talvez, tenha sido vítima de um golpe. "Mas até a velhinha ganhou", pensa. "Nossa, até a velha tava no esquema", lamenta-se em silêncio, com as mãos nos bolsos, mais vazios que outrora.

Ouvindo: Rappin' Hood - Rap do Bom

Thursday, June 30, 2011

A verdadeira história de Jesus de Nazaré

-Aê seus indecente, tão com sede, é? Se liga naquele tonel cheio d'água, eu vou transformar tudo em goró e vocês vão parar de me encher o saco.

Assim foi feito o primeiro milagre de Jesus de Nazaré, moço pobre, filho de um carpinteiro e de uma dona de casa. Cansado das eternas brigas entre Seu Zé e Dona Maria - Zé não acreditava que Jê era realmente seu filho - o jovem decide sair de casa, portando apenas uma túnica surrada.

A barba e o cabelo logo ficaram longos e descuidados. O estilo desapegado e a fala mansa atraíram os mais diversos seguidores, sempre a alguns poucos passos daquele que passaram a chamar de Mestre. Pedrão e Dedé, ambos pescadores, foram os primeiros a juntar-se ao nazareno. Largaram barcos e redes e passaram a andar por esse mundão afora arrastando túnicas e falando bobagens em praça pública.

A trupe de Jesus multiplicou-se e, um mês depois de ter deixado a periferia de Jerusálem, a turma já contabilizava 13 andarilhos, todos rotos e mal lavados. Apoiados nos xavecos do mestre, pouco necessitavam: fartavam-se em doações, esmolas e mesmo favores prestados pelas admiradoras desses homens de espírito livre. Porém, passando por um lugar ermo e sem habitantes para saciar a fome do bando, o desafio do trabalho atormentou as almas do povo de Jesus pela primeira vez. Judas, conhecido pelo apelido de Isca, lançou:

-Pô, Jê, dá um tempo aí nessa caminhada, mano. Tô com a maior sede aqui, faz dois dias que nós não come. Vai ter jeito de continuar assim não.

-Ô, irmão, dá um tempo pra mim. Cês só pedem, cara, tá louco.

Tiago, o menor da turma, aderiu à causa de Isca:

-É mesmo, Jesus, tá osso aqui. Mó sede, mó fome e cê não tem nenhum amigo pra descolar algum pra gente.

Foda-se. Bando de pau no cu, uns puta midá-midá do caralho. Que que eu fiz pra merecer isso, meu Deus? Além de ser filho de corno, virei pai de 12 marmanjo forgado. Dá força pra mim, Deus, me ajuda, senão eu mato um desses filhadaputa.


Depois de pensar isso, Jesus sente um arrepio. Julga ser a fome, ou a sede. De saco cheio, propõe que sigam caminhando até encontrarem abrigo. Lá resolveriam tudo. Cinco horas depois, encontram uma casa abandonada à beira de um lago. Na varanda, um grande tonel cheio d'água. E nada mais. Jesus propõe:

-André, arruma um jeito de pescar nesse lago. Ainda deve ter uns peixes por aí, a gente pode fazer na brasa.

-Tá me tirando, Jê? Todo mundo aí sentado e eu vou ficar no sol pescando? Tô de boa, viu?

Puta que me pariu. Puta mesmo, aliás, caralho, gente. Deus, me ajuda, não aguento mais, vou matar esse cara agora, na porrada mesmo. 

Jesus pensa mais uma vez e é tomado por uma fraqueza. Desmaia. Volta a si e vê a turma toda em volta de si. Levanta e diz, cheio de raiva:

-Aê seus indecente, tão com sede, é? Se liga naquele tonel cheio d'água, eu vou transformar tudo em goró e vocês vão parar de me encher o saco.


Palavras pronunciadas, milagre feito. Vinho tinto fino jorrava infinitamente do tonel. Judas Tadeu, conhecido como o Juta, é o primeiro a deitar-se debaixo da fonte de vinho e beber até soluçar. André vê a chance perfeita de fugir de vez da tarefa de pescar pra 13 barrigas esfomeadas. Chama Jesus de lado e começa, baixinho:

-Pô, Jê, moral você, hein? Tava pensando aí, será que não dava pra você dar um jeito no rango aí pra gente? Eu ainda tenho um pão muqueado aqui no bolso, mas falta uma carninha, né?

-Firmão, Dé. Mas busca pelo menos um peixe na lagoa pra eu tirar o modelo, vai?

Ouvindo: Michal Menert - In the Morning