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Tuesday, April 12, 2011

Juventude inocente

- Caralho, demorou pra caralho, hein?
- Pô foi mal, tava tirando uma grana da velha.
- Vambora que tamo atrasado pra aula, caralho.

Estavam realmente atrasados. A uma hora dessas o prof. Clóvis estava na segunda lousa da arrastada aula de semiótica. Júlio e Cabeça queriam e precisavam atravessar a Zona Oeste inteira para poderem, ao menos, assinarem a lista.

- Pô Júlio, vamo dar um tirinho antes de ir nessa.
- Caralho, hein, Cabeça, teu apelido fala tudo mesmo. Segura aí.
- Valeu, Julião.

Cabeça estica duas carreiras na capa do caderno. Seu ar sereno está prestes a dar lugar a um verdadeiro lobisomem dominado pelo efeito da branca. Cheira. Passa o canudo. Júlio cheira, dá a partida e limpa o nariz.

- E aí, quanto você descolou?
- Peguei só 150 conto. Foi foda, a velha tava afim de ajudar a gente não, viu?
- Caralho, hein, Cabeça, cê já foi melhor nisso né?
- Pô, foi mal, aí. É o que eu consegui arrumar com a velhinha.

Júlio coloca cada vez mais peso no pedal do acelerador. O carro segue o ritmo de sua cabeça, que gira agora em 3ª marcha, bem esticada, com o torque ao máximo. Seus olhos estão mais acesos que qualquer farol.

- Acelera aí, Julião. Tem que chegar nessa aula logo, caralho.
- Qualé, Cabeça? Tá com pressa de escolinha agora?
- Pô, temo que chegar logo. Vambora aí, acelera essa porra aí.

Pé na tábua, manobras agressivas, sinais vermelhos. Nada retarda a pressa da dupla de playboys que dirige rumo à Pontifícia Universidade. Estão no fim do segundo ano, mas são amigos e parceiros desde o dia em que se viram.

- E a velha, tá tudo em cima com ela?
- Acho que agora tá.
- Como assim?
- É que..
- É que o que, caralho?

Júlio espuma pela boca, não olha mais o que tem à frente de seu carro. A cocaína é agora sua dominatrix e faz o que quer com sua mente. Cabeça fala, entre o pilhado e o indeciso:

- Tive que mandar ela pro caralho, Julião.
- Filho duma puta. Falei que não era pra matar, caralho.
- Pois é, Julião, foi mal. Bora chegar na facul logo, mermão.

A pressa aumenta.


Ouvindo: Bomba Stereo - Fuego

Wednesday, March 23, 2011

Homem é homem, mulher é mulher...

Depois de passar o corredor da carceragem do 3º DP aos berros de 'me bota aqui não, dotor', Gilsinho foi atirado pra dentro da cela nº 2, com capacidade para 6 detentos, mas que na época suportava 22. Cientes do boato que o novato tinha caído no artigo 213, os habitantes da cela estavam mais que ouriçados. 'Aê, já era, esse aí é meu'. 'Passa o rabo dele pra cá'. 'Vai morrê, cuzão!'. Cocão, o dono da cela, tratou de acalmar a família. Com o indicador cruzado na frente dos lábios, fez shhhhhhh e todos calaram. 'Vem cá que eu quero te dar um papo, irmão'.

Gilsinho não para de tremer e está todo mijado, além de escoriações múltiplas pelo corpo, cara inchada e sangue seco e craquelado por toda a sua pele. Não se pode dizer que ele se acalma, mas o simples fato de todos obedecerem ao pedido do chefe da cela o deixa menos apavorado. Cocão dá a palavra, num tom relaxado e curioso:

- E aí, irmão, caiu no 213?
- Foi sim.
- Conta aí como foi...
- Pô, como assim. Tô arrependido, já apanhei que nem cavalo...
- Fala aí, irmão, como foi, rebentou a menina na piroca?
- Pois é...
- Então essa vai ser a gozada mais cara da tua vida, rapá. Aê Nelsinho, chega mais, busca a roupa dele lá!

Todos os detentos comemoram em alto e bom som.

Nelsinho é o braço direito de Cocão, odediente como um cão perdigueiro. A 'roupa' é uma calcinha de fio dental, costurada pelos travestis da cela 3, reforçada nas costuras, resistente e rendada. Parece que Gilsinho se mijou mais uma vez. Nelsinho encontra a calcinha embaixo de seu colchão e joga na mão do novato. 'Veste essa porra aí, mermão'.

Cordas de varal, camisinhas, lanternas, é inacreditável a quantidade e variedade de coisas que os detentos conseguem colecionar em seu cotidiano moroso. A família pendura Gilsinho na grade, os pés distantes um palmo do chão. Está preso de frente para as grades, amarrado pela frente da calcinha. 'Nelsinho, tem que lavar esse porra aí, mano'. A ordem de Cocão é cumprida em segundos com uma ou duas canecadas de água na linha da cintura do detento. 'Hoje vamo brincar de poste, moçada. Quem vai primeiro?'

Nelsinho levanta a mão e logo pede ao patrão: 'Posso rabiscar no poste, Cocão?'. Permissão dada, Nelsinho pega a gilete e escreve, começando as palavras entre os ombros de Gilsinho e terminando na lombar:

"Familia 3º DP  
Estrupado é diferente
Sem perdão
Rabo da geral"

Enquanto o sangue escorre, Nelsinho se prepara para sodomizá-lo. Enquanto o faz, faz juras de amor eterno à noiva da cela. 'Agora tu é nossa, vai servir a geral aqui. Fica calmo, você ainda se acostuma e gosta, menina'. Os outros detentos fazem um burburinho na tentativa de organizar uma fila. Xeroso, o mais jovem dos prisioneiros, fica de canto, desinteressado da brincadeira dos irmão. Cocão logo vê e ordena: 'Tu é o próximo lá, irmãozim'. 'Gosto de cu de homem não, Cocão, na boa.' 'E quem falou que essa porra ai é homem? Tu é o próximo'.

Gilsinho só se lembra da história até aí e é isso que ele conta para o delegado Matoso, entre soluços e tremedeiras. Gilsinho implora com toda a sua emoção para que seja colocado no seguro.

Ouvindo: IAM - La Fin de Leur Monde

Friday, January 28, 2011

José e Paulinha: uma história de amor - parte 2

- Oi tia, olha, esse aqui é o Zé, meu namorado.

Mirian esboça uma reação quase tirando os olhos da tela da TV, que transmite os momentos finais de Araguaia:

- Ahn?

- Prazer, José - o namorado se antecipa.

- Ah, oi.

Mirian tem 42 anos e gosta de TV. Mirian gosta mesmo de TV com conhaque e cigarro e pode passar a vida toda colada no sofá. Mirian queria que a sobrinha Paulinha fosse mais parecida com a índia Estela, estrela de sua novela. Miriam é feia e sabe disso - "é a idade, né gente?". Na verdade, Mirian sempre fora feia e a idade tinha pouca culpa nesse processo. Mirian conheceu Paulinha no enterro de Marta, sua única irmã. Desse dia em diante, Mirian e Paulinha formariam o que chamaremos aqui de família.

Mirian nunca fez sucesso entre os homens que conheceu. Mirian nem gosta tanto assim de homem. Paulinha sentiu isso desde cedo durante a supervisão de banho ministrada pela tia. "Tem que ver se tudo tá limpinho, menina, deixa a tia dar uma olhadinha". A passagem das alisadas para as dedadas, do chuveiro para o quarto, das bolinadas maliciosas às linguadas explícitas, todo o processo não demorou mais que seis meses. Paulinha tem nojo de Mirian. Desde sempre. Para sempre.

- Fica a vontade aí, João - Mirian fala sem vontade de olhar na cara do sujeito.

- É José, senhora.

Há exatos 45 minutos atrás, José não tinha planos de tornar-se o namorado de Paulinha. José queria, José só pensava em matá-la dentro do quarto sujo e barato. Paulinha ainda preparava a cena para seu trabalho, abrindo as cortinas para arejar o clima. José vem atrás e fecha o pano com um gesto brusco.

- Que é isso, gato? Tá muito quente aqui.

- É que tem os vizinhos, gosto de gente me olhando não.

- Esse pessoal aí não liga pra essas coisas, tão tudo acostumado já.

José não liga, deixa a cortina fechada. Paulinha, de frente pra cama, tira lentamente a calça apertada que demora em descolar de seus quadris. Rebola de novo. Provoca. José vai atrás e agarra Paulinha pelo pescoço, usando toda a força de suas duas mãos.

- Calma, lindo. Você gosta bruto, assim? - Paulinha continua lânguida, serpenteando seu quadril de encontro ao sexo de José.

José sente algo diferente. Não era mais aquele desejo que o consumia há tempos. Era algo diferente, sim, aquilo era puro e simples tesão. Tesão por uma puta barata, em um quarto sujo. José afrouxa a pegada no pescoço de Paulinha.

- Gosto sim. Você topa?

- Claro, lindo.

José parte para cima de Paulinha para fazer o melhor sexo de sua vida. José tem gana, José tem gás, tem um apetite feroz pela carne da puta que o serve na cama. Fode como um animal, sem querer parar, sua última chance de mostrar ao mundo seu potencial como macho. Quinze minutos depois, cai pro lado, exausto. José chora copiosamente, soluçando como uma criança assustada. Paulinha adorou José - "puta não tem tesão, mas tem vezes que acontece, né, moço?". José se confessa. José conta seus desejos mais macabros. Paulinha sabe que escapou da morte. José faz juras a Paulinha. Paulinha sente também que ama José. Paulinha e José seguem andando para a casa de sua tia.

- Então, é José, senhora. - José ainda sente o peito apertado e odeia a desatenção de Mirian. A veia de seu pescoço palpita. A testa está suada e as mãos estão trêmulas. Paulinha sente conhecer José, estão ligados de corpo e alma nesse amor bandido. Paulinha sugere:

- Zé, você não prefere que a gente feche a cortina?

Mirian não liga para a fala de Paulinha. Mirian quer que os dois se fodam. José responde com um sorriso malicioso em seu rosto. José sabe que Paulinha sabe que ele quer matar. Matar ali mesmo, matar agora e deixar fluir o desejo em seu corpo.

- Fecha sim, amor.

José investe com toda sua força contra o pescoço de Mirian e aperta até ouvir as cartilagens do pescoço da velha nojenta crepitando contra seus dedos, que estão roxos. Mirian desfalece com os olhos virados pro alto, baba grossa e farta escorre de seu queixo. Mirian está morta. Paulinha e José estão felizes e trocam olhares de cumplicidade. Com as cortinas fechadas, comemoram seu amor ao lado da tia morta.

Ouvindo: Roots Manuva - Snake Bite

Thursday, January 27, 2011

José e Paulinha: uma história de amor

Paulinha tem 17 anos - "mas não conta pra ninguém não, viu, moço". Paulinha tem os cabelos longos e alisados às pressas, com as pontas finas e frágeis. Ela veste calças muito apertadas, nota-se um pneuzinho que insiste em fazer a divisa entre a calça e o top. Pneuzinho provocante, mordível, apetitoso. O top tem uma alça pendente e o sutiã de oncinha aparece por onde quer que ela balance seus quadris pelo centro da cidade.

Paulinha tem cara de índia brava, os olhos levemente rasgados, a pele morena e desfavorecida pela maquiagem barata. Paulinha é sozinha - "na verdade eu moro com a minha tia, moço, mas isso aí tanto faz". Paulinha é sozinha porque sua tia é amiga da TV, do conhaque e dos cigarros de filtro branco. Paulinha quer que sua tia se foda. Na sua boca, carnuda e pintada em vermelho abundante, ela é uma "garota de pograma" - "mas tem gente que adora chamar de puta, né moço?". O que Paulinha quer mesmo da vida é foder com o mundo inteiro.

José tem 52 anos, mas em sua boca rodeada por um bigode pra lá de nojento, insiste em comentar que aparenta 45. Veste traje social completo, ritual que repete todos os dias úteis desde 1984. Bancário convito, amante do stress cotidiano, fuma inveteradamente e toma café sempre que tem uma chance.

José é sozinho. Na verdade, tem mulher e dois filhos. Mas José não tem tempo pra essas bobagens de carinhos e chamegos. José quer que sua família se foda. Há alguns meses, uma sensação estranha aumenta ainda mais o nó na garganta causado pela gravata colorida que o acompanha sempre. Um tipo de  ar preso no peito, uma ânsia, uma vontade esquisita que não lhe dá paz. Em seu íntimo, José sabe que sente um desejo incontrolável de matar. José quer foder o mundo inteiro.

José passa pela rua, passo apertado e olhar perdido, pronto para ser fisgado por qualquer outro olhar que passeasse pela R. Libero Badaró às 17h14 daquele dia. Paulinha está parada na calçada, com as costas coladas  à parede, mexendo descompromissadamente na alça pendente de seu top. Paulinha joga olhares para todos os lados. O seu olhar encontra o de José. José responde ao seu olhar, simplesmente sem desviar o olho à primeira instância.

A experiência de Paulinha fala alto. Paulinha sabe bem reconhecer boas oportunidades de negócio. Tiozinho com cara de vendedor, suado, bigode amarelo de cigarro: dinheiro rápido e fácil. Dez minutos olhando para o alto enquanto o cliente faz seu vai-e-vem desajeitado, resfolegando em cima da serviçal e amaldiçoando o clímax que chega cedo demais.Um lencinho pra ele, um banheiro pra ela, dinheiro no bolso e já era. Paulinha tem certeza do roteiro e convida:

- Bora fazer um amor gostoso?

José não é do tipo que come putas. Por mais que seja um canalha convicto, dizia ter nojo daquilo. Mas a sensação que o acompanhava há tempos apareceu galopando em seu peito, pôs seu coração em disparada, os olhos arregalados, o suor na testa, tudo indicava: chegou a hora. José topa.

- Vambora.

Paulinha sobe as escadas na frente. Rebola propositalmente para antecipar uma semi-ereção que lhe pouparia uns 3 minutos de trabalho. José sobe atrás. Desinteressado diante da bunda que balança à sua frente, José só pensa em matar. Paulinha abre a porta do quarto, deixa a bolsinha na cadeira, abre as cortinas para arejar o quarto do moquifo alugado a 10 reais. José vem atrás, mas não concorda com a cortina aberta diante da vizinhança. Fecham-se as cortinas, começa o espetáculo.

Ouvindo: Birdy Nam Nam - Jazz it at Home

Thursday, January 20, 2011

Soldado de chumbo

X-E-R-O-S-O. Termina a demorada tarefa de marcar seu novo apelido na parede do barraco. Nem tão demorada como o processo de aceitação da alcunha. Tudo mudara depois da operação limpeza deflagrada pelo governo carioca. Muita polícia, muito milico, cagueta a dar com pau e a atividade teve que diminuir.

A boca agora funciona na encolha. Muito longe dos dois quilos do branco e 50 do preto que saíam por mês antes da invasão. Cidão, antes gerente do preto, hoje é o frente e vive entocado de barraco em barraco. Os 35 soldados estão reduzidos a 3. A maioria é vapor - desce o morro com mochilas nas costas e sobem com dinheiro no bolso. Eram 23 moleques, entre eles, Nequinho, filho da dona Marli, 12 anos, 1,35m de altura, 32 kilos pesados na farmácia da esquina.

Nequinho ganhou apelido novo dois dias depois que o Caverão subiu o Morro dos Mineiros. Assim que viu o carro preto subindo, subiu o morro na frente, metade da mochila carregada de mercadoria, berrando esbaforido:

- A máquina de matá pobre tá subindo. Tá subindo, vão matar geral, aê!

Nequinho é um menino obediente e focado. Sempre de orelha em pé para as dicas dos soldados e do patrão. Enquanto gritava, lembrava: 'pode ir pra casa não, mermão, passam o rodo na tua família toda se não te acham lá'.

Virou de surpresa numa viela à sua esquerda, entrou por baixo do barraco do Seu Quinze e pulou com fé no valão do esgoto. 'Só saio daqui morto, esses alemão não me pega nem fudendo, aí'. Repetia o mantra enquanto espantava ratos, baratas e tudo mais que passeia pelo esgoto e insiste em colar em seu corpo.

O tempo passa devagar e, ao meio dia de um dia quente, a vala é um lugar ingrato. O cheiro de podre entorpece Nequinho, que não pode desistir, não pode desentocar antes que os inimigo dêem pé da favela. Sonha alto - ou talvez alucine de fome, de enjôo, de cansaço. Quer virar soldado logo, andar de quadrada enfiada no bermudão, comer as mina geral, botar um Nike no pé, tomar Red Bull, cheirar até umas horas, virar sujeito homem e não largar dessa vida nunca mais.

No fim do segundo dia enfiado na sujeira, Nequinho ouve o aviso dos fogueteiros - somente foguetes de um tiro só, estourados um a um durante um minuto seguido por uma salva de "treme-terra" de 12 tiros. A senha exata para saber que a polícia sumiu dali. Na base do arrego ou por ordem do governador, o que interessa pra ele é que ele tá salvo.

Tira a cara do buraco e percebe como os ratos vêem a gente, olhando por baixo, sujo e malvisto. Limpeza, o vai e vem de sempre, tudo "normal". Resolve meter o corpo pra fora e subir até a boca, falar com o Cido, mostrar seu heroísmo e a meia carga que ainda conseguira salvar na mochila. A visão de tantos rostos desolados na subida do morro deu a pista para o que o moleque iria encontrar lá no alto. O patrão não se anima muito quando vê Nequinho chegar na boca, mas assim mesmo abre o canto da boca com um sorriso de dentes pretos e finos.

- Caralho, que cheiro é esse, Nequinho?
- Na moral, tava entocado, aí. Tava lá na vala.
- Aê Cheroso!
- Qualé, Marcão, dei mole não rapá.

Aos 16 anos de idade, Marcão era o melhor soldado da boca e foi um dos três que sobraram em pé depois que Cido ordenou que começassem a trocação com a polícia. 90% dos soldados morreram - de tiro trocado ou de execução, o fato é que nenhum dos moleques saiu dali preso. A sorte de Cido é que levaram Cotoco, chefe da endolação, em seu lugar. Ouviu tudo por debaixo do barraco, mas não deus as caras enquanto Cotoco era esculachado e forçado a dizer que era o gerente, o Cido da Biqueira. O patrão do morro sumiu um dia antes da invasão.

- Já é, aé, agora tu vai ser o Cheroso.

A palavra do chefe era palavra final.

- Tu sabe atirá, rapá?

Era a primeira vez que Nequinho, agora conhecido como Cheroso, não era tratado por moleque. Sem hesitar, mandou na lata:

- Claro que sei, ué.

-Então pega nessa quadrada que agora tu subiu de posição. Agora tu é soldado, irmão. Marcão, joga um radim na mão do Cheroso. Agora é tu, Cheroso e o Berola. Quem é o frente dessa porra aqui, caralho?

- É cê mesmo, Cidão. O baguio aqui é CV, tá ligado?

- Já é! Junta lá com o Berola e vamo metê atividade nessa porra, precisamo levantá a boca, ganhá uma merreca aí pra se sustentá.

Cheroso vira as costas e começa a descer o morro. Quer muito participar de um bonde e sentar o dedo nos inimigos. Sonha calado em participar de um bonde, daqueles bem sinistros, que vão entrar pra sempre por anedotário popular das favelas cariocas. Cheroso quer ser herói.

Ouvindo: Da Weasel - Dialectos da Ternura

Wednesday, December 01, 2010

Soldado morreu, antes ele do que eu

- Mete a cara aí, recruta. Sobe até aqui pra dá essa de rato, rapá? Mete a cara logo que eu vô te matá, arrombado!
- Se entrega aí, Fabrício. É melhor pra todo mundo. Pensa na sua mãe. Dá pra tu escapá daqui não, cê sabe.
- Fabrício é uma porra, soldado. Tomá no cu, milico do caraio. Cê era favela e agora tá pagando de matadô do governo. Alemão do caraio. Eu sô o Brasa, morô, neguim?

Fabrício e o neguim se conhecem desde pivetes quando sua vida se resumia a fliperama, tubaína e uns assaltozinhos de trombadinha. Neguim antes tinha nome - Renato. Aos 18, Renato virou Soldado Gonçalves. Aos 17, Fabrício virou o Brasa, gerente de pó do morro do Vidigal. Soldado nunca mais tinha posto os pés no morro - na verdade, aparecia vez ou outra, mas entrava e saía de fininho, sem chamar a atenção do pessoal do movimento. Dois anos depois, Fabrício e Renato se encontram na virada da viela, cada um no seu canto, cada um na sua luta. Cada um com seu fuzil.

- Sai voado daqui, neguim, essa guerra né tua não, viado!
- Tô trabalhando, Fabrício, posso dá mole pra ti não.
- Arrombado do caralho, filho dunha puta do caraio. Porra, neguim, vô te quebrá, rapá. Some daqui, porra!
- Vai dar não, aê. Tem mais soldado subindo, se entrega na minha mão que eu te levo preso lá pra baixo. Se os cara subí vai ser pior, vão te sentá o dedo.
- Vai prendê o caraio, viado. Prende porra nenhuma. Tô te vendo neguim, tu tá na minha mira, vô te passá o rodo, arrombado.

O coração de Renato perde um pouco do compasso - assim como perdeu o compasso quando Fabrício deu o primeiro tiro na cara de um coroa que tava fazendo onda por causa de uma correntinha. Renato sabe que Fabrício não blefa. Seus olhos têm medo de tudo que vê, o Soldado tateia o ar com seu fuzil, mira em tudo que se mexe. Seu nariz não gosta do cheiro que sente e seus ouvidos tremem ao que ouvem:

- Eu vô te passá agora, neguim. Vô contá até dez pra você sair de pinote daqui. Vira as costa e vaza, morô?

O Soldado Renato se sente cada vez mais desprotegido naquela viela - viela que era endereço da Tia Dirce, a mãe de criação dos dois meninos de caminhos cruzados. Talvez seja hora de aceitar o conselho do amigo, dar as costas e sair dali o mais rápido possível. Dar baixa do Exército, sumir, ir morar na baixada, plantar umas plantinha, criar umas galinha e que se foda o resto dessa porra toda.

- Valeu Brasa, tô dando pé - acreditava na palavra de Fabrício, achava que realmente estava na mira e o melhor a fazer era se dar por vencido.
- Boa, recruta. Some daqui. Olha pra trás não, rapá - falava com a voz mais mansa, tentando acalmar o Soldado Gonçalves.

- Tô saindo, então.

Essa foi a última frase de Renato, vestido e armado em Soldado Gonçalves. Foi a sua última fala que denunciou sua posição - e foi o primeiro blefe de Brasa, fazer o inimigo acreditar que ele realmente estava na mira. Fabrício mira calmamente as costas de Renato:

- Aê arrombado, perdeu, cuzão.

O primeiro movimento da cabeça de Renato, que fazia menção de olhar pra trás, culmina com o dedo no gatilho do fuzil. O primeiro tiro vara o corpo do Soldado e o segundo o joga no chão. Jaz no chão preto e fedido do Vidigal.

- Aê otário do caralho! Vai acreditá em bandido, vacilão.

Ouvindo: NTM - Assasin de la Police

Monday, April 12, 2010

Família, frutas e futricas

Carlos Juliano tinha 23 anos e dois irmãos. Seu apelido era Caju. Cajá era irmão de Caju. Nascido e batizado Carlos Jacinto, tinha Carlos Quincas como irmão mais velho. Cajá era o irmão do meio, posicionado entre Caju e Caqui. A salada de frutas começou a desandar quando Caqui desandou falar mal de Caju para as meninas da vizinhança. Invejoso das investidas do irmão de olhos cor de castanha, Carlos Quincas espalhava frases cifradas pelos muros da quebrada: "Caju podre não presta pra nada". "Caju tem uma castanha entalada no cu". E o nível descia a ladeira junto com os muros, que estavam quase todos tomados pelos escritos de Caqui. Mal a noite caía, Caqui saía de casa com uma latinha de tinta e muita maldade na cabeça. Na cabeça de Caju nem passava a idéia que o covarde que o desonrava era o irmão mais novo, só ficava a tormenta deixada pelos risos velados das meninas. Caju passava, a risada corria, a veia da testa saltava e o mocinho voltava pra casa fulo da vida, querendo saber se o corajoso teria a coragem de dizer na cara onde é que estava entalada a castanha de Caju. Cajá não queria saber de caso e não entrou no meio dos dois, pois sabia que era o Caqui quem fodia a vida do Caju. Cajá queria mais é ver os dois se sabotando, enquanto aproveitava para levantar as saias das meninas, que antes só mostravam as "perninhas" pro Caju.

Ouvindo Caju e Castanha - Embolada

Wednesday, March 24, 2010

Josimar: cabra-macho e matador

Josimar chegou à cidade grande ainda jovem, imberbe, ou quase, uns pelos incomodavam ora aqui, ora ali, sempre juntando o suor em cima dos lábios. Josimar é magro e mede metro e setenta, setenta e pouco, última vez que mediu ainda tava na escola, lá no sertão do Pernambuco.

Josimar quando era moleque gostava muito de pião, quando mocinho gostava de rabo-de-saia, quando cabra-homem gostava de peixeira e rabo de galo. Procalmara-se cabra-homem aos 17 anos, idade quando conhecera Jeruza, fincara-lhe seu membro desajeitado, embarrigara-lhe e matara, diz ele que por acidente, Jacinto, irmão mais velho de sua mulé e projeto mal-acabado de cunhado.

Josimar, que é cabra-homem, não gosta de polícia e meteu logo o pé na estrada, subiu num pau-de-arara e veio pará em São Paulo, de bigodinho suado, banho vencido e bolso rasgado. Logo aprendeu que a peixeira não tinha vez nas ruas dessa cidade, que bolso vazio não pára em pé e que rabo-de-galo custa muito mais que do lado de sua casa, na venda de seu José.

Josimar logo conheceu seus conterrâneos, arrumou um canto num cortiço e um emprego numa cozinha. Arrumou um dinheirinho, suado, mirradinho. Ali na vizinhança conheceu colegas que também prezavam pelo risca-faca, arrumou um rabo-de-saia e logo virou o maior tomador de rabo-de-galo do bar de seu Joaquim. Aprendeu a cozinhar, fazia coxinha, picadinho, costela, mocotó, feijoada, rabada, buchada, peixada, macarronada, carne assada, galinhada e mais uma caralhada de prato que lhe dava nó nas tripa só de imaginar.

Josimar não comia no bar, tinha nojo daquilo tudo, da vontade tola das turmas que passavam por ali. Não agüentava os pedreiros bebendo tubaína com a boca cheia de comida, ficava sem fome ao ver os pedreiros limpando boca brilhante de gordura com as costas da mão, arrotando alto o feijão quase fervendo que comiam apressados para descansar na sarjeta antes de voltar subir aqueles andaimes sem fim.

Josimar gostava mesmo era de Jane, vizinha safada que mostrava o perigo que morava em suas saias toda vez que o paraíba era o próximo na fila do chuveirinho vagabundo improvisado no quintal. Rabo-de-galo, Jane e peixeira eram as coisas que ele mais gostava nesse mundo, assim nessa ordem mesmo e sua vidinha seguia entre o caminho de casa, o cortiço e a caminha suada de sua mulé.

Josimar passou dois anos nessa vida, servindo virado às segundas, bife à rolê às terças, quarta-feria era feijoada. Quinta tinha massa, sexta era peixe e a feijoada de sábado tinha cheiro de folga. Sábado às quatro da tarde era hora de cair na rua, atravessar a cidade, parar no seu Joaquim e encher o bucho com rabo-de-galo e qualquer tira gosto pra não cair no chão. Ensandecido, partia para o banho, goma no cabelo e Jane pro forró.

Josimar era cabra macho, sangue quente, honrado como um cavaleiro das histórias que os contadores que passavam pela sua vila fantasiavam. Josimar não gosta do jeito que Geraldo olha para Jane. Josimar deixa escorrer pelos lábios o último gole de rabo-de-galo, tomado às pressas, aos soluços, enquanto Geraldo funga o cangote de sua morena de cabelos loiros. Josimar treme das pernas, mas tem as mão decididas que miram na faca de cozinha em cima da pia do bar. Josimar agora é um só, cabeça, coração, entranhas, seu bucho cheio de cachaça, todo o conjunto do cabra que vinha lá de Cabrobró queria ver o sangue de Geraldo lavar a sua honra.

Josimar apanha a faca num instante, aperta em seu punho e anda com uma pressa cambaleante em direção ao casal. Josimar puxa Jane pelos cabelos e a joga no chão. Josimar dá a primeira facada nas costelas de Geraldo. Josimar tira a faca, o sangue espirra e logo dá uma no bucho do lazarento, outra no pescoço, o sangue pintando o salão. Josimar mata. Josimar comemora. Josimar resfolega, gira em torno do cadáver. O forró está parado, ninguém mais tem vontade de dançar. Josimar foge desembestado pelas ruas da cidade. Josimar encontra a polícia ao lado de seu quarto. Dentro da penitenciária, Josimar termina o relato de sua experiência ao lado dos irmãos do Reino das Testemunhas de Jeová.

Ouvindo: Gabriel O Pensador - Faça o Diabo Feliz

Wednesday, March 10, 2010

O correto homem que pagava seus impostos

Indignado, o cidadão anda na rua mostrando a todos suas infinitas notas fiscais, todas emitidas em três vias, a branca pro cliente, amarela pro comerciante e a rosa pra receita federal.

Gritava com olhar perdido, dividindo o horror que é pisar nas ruas, declamando decor e salteado seu número de contribuinte, sua senha do iTunes e seus rendimentos com a última restituição do IR.

Gabava-se de seus DVDs originais, de nunca ter patrocinado nenhum pirata, de nunca ter falhado com suas obrigações, seja na cama, seja na urna. Assim como loucos pregando o fim do mundo, pregava ele ao léu a sua certeza de ser bom, correto, honesto, legal, atencioso, preocupado, altruísta, construtivo e outros adjetivos que perdi no meio de sua loucura.

Olhavam-no com desprezo ou curiosidade, xingavam-lhe, não lhe davam bola. Era só mais um louco que tentava vender sua loucura pelas ruas de São Paulo. Quase ninguém prestava atenção no homem que fazia de tudo por um país melhor.

Aí que surge um moleque, ao lado de outro moleque. As caras sujas denunciavam a falta de casa e o exagero de loucura que a rua oferece quase de graça para os destemidos.

Gabava-se de seus feitos, de nunca ter feito uma lição de casa, de nunca ter comprado quase nada, nunca tinha pegado uma nota fiscal na mão e achava que imposto era nome de jogo ou de cidade.

Esse era quase o único espectador da pregação do primeiro louco, começou a prestar atenção nele enquanto gritava algo sobre "essa merda de país tá uma bosta". A frase chamou a atenção porque o menino adorava palavrão. O menino logo cresce os zóio no telefone gringo na mão do profeta e aproveita seu devaneio para tomar o precioso das mãos do correto pagador de impostos.

No meio da confusão um pedaço de papel branco cai no chão, a nota fiscal do telefone novo, propriedade privada de direito inalienável. O moleque não dá bola. Não seria aquela a primeira nota fiscal de sua vida.

Ouvindo: Blasted Mechanism - Battle of Tribes

Sunday, December 03, 2006

O jardineiro é jesus e as árveres somos nozes; uma breve história sobre o homem que desaprendeu a falar

Passeando certo dia pelo youtube e vi o vídeo sobre um homem que supostamente está em uma sessão de fonoaudiologia. A fonoaudióloga fala a seguinte frase e pede para que o paciente repita: "o jardineiro é jesus e as árvores somos nós". Parece simples, pois não? Vi o vídeo e me lembrei do Julão, um amigo meu que de repente desaprendeu a falar...

Acordou cedo como nunca tinha acordado. Foi ao banheiro, escovou os dentes rapidamente, só pra tirar o quente da boca, tirou as remelas, molhou o cabelo, bebeu uma água da torneira. Bateu uma vontade repentina de cagar, sentou no vaso, puxou uma revista e começou a tarefa inesperada. Enquanto lia sobre amenidades esperando seus momentos de rei chegarem ao fim, seus pensamentos se perdiam imaginando o almoço de domingo. Tradicional como deve ser, com toda a família. Mãe, pai, irmãs, vó, tio, tias gordas, primas chatas e a gostosa da segunda mulher do Quincas, seu tio mais novo. Quem mandou seu pai ter a maior casa da família? Quem mandou ele ser mão aberta e sempre bancar os almoços de família? Julão queria mesmo era ressacar na cama, ficar rolando até as 16h, sonhando meio acordado com as biscates que vira na noite anterior. Fim da tarefa, era hora de encarar a mãe, que sempre ficava uma pilha algumas horas antes desses eventos. Dona Lourdes vê o estado do filho, seus olhos esbugalhados, o cheiro de álcool e tudo mais que se nota em um boêmio, como ele gostaria de ser encarado.

-Que cara, hein Ju... Tava onde até agora?
-Tava na puta que o pariu!

Imaginem a cara da sua mãe se você responder uma coisa dessas pra ela. Agora imagina a cara da Dona Lourdes. Imaginou? Agora coloca um par de óculos de aro colorido, em forma de semicírculo, daqueles que viraram moda nos anos 90. Cara feia, né? Mas pior mesmo era a cara de Julão. Não era aquilo que ele queria falar. Queria responder simplesmente que "tava por aí, na balada" ou qualquer coisa do tipo. Mas não, saiu aquilo mesmo.

-O que é isso, moleque, tá louco é?
-Louco é o caralho, sua velha!

"De novo? Por que eu falei assim de novo? eu queria pedir desculpa. O que se passa comigo? Tem alguém aí dentro?", pensava ele com os olhos virados pra cima... Julão não conseguia falar o que ele queria, tudo saía da sua boca de um jeito estranho. Por mais que tentasse controlar, só conseguia falar coisas que vinham de impulso. Tinha perdido as rédeas, não estava mais apto para o convívio social. O que fazer com os parentes? O que ele ia falar quando a tia dizesse aquele famoso "você cresceu, hein Ju!" "É que a senhora ainda não viu meu pinto, sua puta!" Não, não podia falar aquilo. Tinha que ficar quieto, esconder-se embaixo da mesa, sei lá. Bico calado e na segunda-feira pela manhã acharia um médico que o curasse dessa coisa horrível. Deixou a mãe falando sozinha e correu pro quarto.

E foi todo mundo chegando. Chegou o tio César, com suas duas filhas chatas e sua esposa maquiada. Tio Roberto, solteirão e viciado em baralho. Tia Marina, 208 quilos balanceados entre gordura e chatice. Vovó e vovô, ambos fazendo hora extra na Terra. Tio Mário, advogado bem sucedido, com mulher, filhos e uma caixa de Viagra por semana. Julão tinha a vantagem de conhecer cada entrada e saída dos cômodos de sua casa e aproveitava para esgueirar-se pelos corredores evitando ao máximo qualquer encontro com os familiares. Comia o tempo todo para manter a boca suficientemente cheia pra qualquer um achar falta de educação se ele a abrisse. Somente meneava a cabeça, ora pra cima e pra baixo, ora prum lado e pro outro.

Tio Roberto foi o primeiro a conseguir interceptá-lo. Bonachão, de barba e bigodes grisalhos, daqueles tipos que fumam sem tirar o cigarro da boca:
- E aí, Ju? Tudo em cima?
(sinal de positivo com a cabeça)
- E como tão as mina, tá comendo alguém ou ainda não estreou a ferramenta?
(sinal de positivo com a cabeça)
- Tá comendo?
(sinal de positivo com a cabeça)

Julão conseguiu livrar-se do tio com alguma dificuldade depois de responder positivamente com a cabeça todas as perguntas que Roberto fazia, invariavelmente sobre a vida sexual do sobrinho. Continuava a andar pela casa, sempre enchendo a boca de queijo, salame e guaraná. Passou pelos mesmos apertos com suas tias, primas e avós. Mas conseguiu escapar de todos com a tática adotada. Só faltava uma pessoa pra enganar, Lucinha. Não era sua tia, pelo menos era isso que Julão achava. "Pra ser minha tia tem que ser irmã do meu pai ou da minha mãe..." Gostosa. Se fosse pra resumir em uma palavra, Julão diria que ela era uma gostosa. Peitão, bundão, pernão, cabelão, tudo ão. Sempre nutrira uma tara pela segunda mulher de seu tio. Várias horas trancado pensando nela, já tinha estado na cama com ela em todas as posições do kama sutra, em todos os continentes, vestida com todas as roupas. Pena que a imaginação logo ia embora quando Dona Lourdes começava a esmurrar a porta do banheiro.

Emcontrou-a na varanda que ficava nos fundos da casa. Ela estava fumando seu Charm escondida dos sogros, que abominavam tal vício. "Caralho, justo aqui tinha que ter alguém?" Julão tremia enquanto admirava seu vestido florido de tecido leve com tons castanhos. Tremia ao olhar suas pernas, seus lábios carnudos envolvendo aquele longo cigarro. Lucinha logo viu Julão e se assustou, colocando o cigarro atrás das costas e segurando a tragada até o último fôlego, mesmo sabendo que o "sobrinho" já tinha visto a "tia" fumando.

- Não conta pro vovô não, tá Ju?
(sinal de negativo com a cabeça)
- Você sabe como eles iam ficar furiosos, né?
(sinal de positivo com a cabeça)
- Se você prometer que não conta, eu te dou o que você quiser, pode ser?
(sinal de positivo com a cabeça)
- Então você não conta mesmo, jura?
(sinal de positivo com a cabeça)
- E o que você quer ganhar então?

Do alto de seus 19 anos, Julão suava, tremia e tentava tapar sua boca. E foi ali que seu plano acabou. Esqueceu-se que tinha desaprendido a falar. Respondeu o que veio em sua cabeça, vomitou a primeira frase que apareceu. Naquele dia várias coisas mudaram em sua família. Tio Quincas ganhara mais uma vez a fama de ser o maior corno do bairro. Julão ganhou o presente que pediu ali no dia, na hora, em pé, apoiados na cerca da varanda. Não foi ao médico na segunda-feira. Na última vez que o vi, soube, em meio a palavrões e coisas desconexas, que meu amigo estava trabalhando como roteirista nos livros de piada do Ari Toledo. Tempos e tempos depois, soube que ele procurou tratamento, que era mais ou menos assim, repete comigo:
"O jardineiro é jesus e as árvores somos nós."

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