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Friday, May 22, 2009

20 ao quadrado; quanto vale a vida de um policia na capital

A polícia anda rondando a minha vida e eu desconfio o porque. Todo dia, há mais de uma semana ela anda aparecendo em cada mensagem: na TV, Leonardo Pareja diz que nunca se entregaria na mão da polícia. No blog vejo frases como "Dos nove, só sobrou um para contar o que viu"; "Rapaziada levou chumbo de potentes calibres". Frases acompanhadas de fotos que até o diabo duvida da maldade. Mas o que me fode é quando pego um jornal qualquer e leio sobre o aniversário do dia do terror em São Paulo, os ataques do PPC e a retaliação da polícia.

20 funcionários da segurança pública, entre oficiais e ordinários, foram mortos durante o ataque da facção. 400 pessoas pagaram o preço, entre criminosos e ordinários, que deixaram a terra para aplacar a dor no coração dos polícias. Sei por que a polícia apareceu tanto pra mim, talvez por causa disso que escrevi naquele dia.

Vem...
Vem pra rua gambé cuzão. Vem pra cá porque aqui é seu lugar. Fica em casa não, folgado, agora é hora de ser homem. Bate na minha cara, agora tá com medo? Vem pra rua, PM cuzão, é você quem eu quero. Quero te ver na Paulista, quero você na sua base. O oitão não basta mais, cuzão? Vem pra cá, é em você que eu confio. Bota no cu de quem quer te foder, mostra que é macho pra caraio. Honra o Tobias de Aguiar. Vem que o pau é Aqui e Agora. Vem pra rua PM cuzão. Vem que o Datena tá chamando. Vem pra cá, eu tô na rua, mas cadê você? Será que se eu ligar você vem? Vem sim, tá todo mundo esperando. Vem pra rua, PM, o governador falou que tá sussa. Vem. Solta o cu da mão e vem. Sai da tocaia, limpa a cara e vem pra rua, PM cuzão. Vem pra rua gambé cuzão. Vem que eu confio em você. Vem que eu quero ver. Mostra quem manda. Mostra a "otoridade". Fala "teje preso". Bate na cara de cada um desses maloquero. Vem pra rua PM cuzão. Não esconde a farda atrás do armário. Não amarela não que não é hora. Sai desse armário, põe o colete e vem pro pau. Vem pra rua PM cuzão. Vem pra cá que a treta é agora. Vem pra rua. Vem!

Eles cumpriram a provocação. Um pouco de culpa minha. Aplicaram uma matemática copiada de tempos de guerra, quando a vida de um soldado valia X nativos. Dizem que na Sérvia a conta começou em 5 por um, depois quando viram já tava em mais de 100 pra um. Os polícia paravam o trem, contavam cem nego e mandavam o trem seguir. 100 mortos, tudo pago. Na humildade de brasileira, a polícia baixou a conta pra 20 pra um, resolveu a treta e voltou pra casa numa boa. Polícia sai do pé. Aquilo ali em cima não passa de uns escritinhos qualquer. Não era pra levar tão a sério. Viva o choque!

Ouvindo - Sabotage: O Rap é Compromisso

Friday, February 22, 2008

São Paulo e o centro

A indisposição é vencida pela vontade de alcançar a Liberdade, a ressaca não iria impedi-lo de fazer a caminhada da República até o bairro japonês. Distraído, não conseguia focar em coisas específicas em meio à bagunça. Balançava a cabeça para um lado, esbarrava o olho em um mendigo que jazia na calçada. A bunda meio coberta, meio à mostra, mas nada que atrapalhasse seu merecido sono. A cabeça pende para outro lado e concorda em prestar mais um pouco de atençâo ao que lhe cerca. A conferida na carteira, um leve toque no bolso de trás da calça, só um pequeno ritual para certificar-se que continuava repelindo mãos maliciosas que insistem em tomar dos outros o que lhes é precioso. Nesse momento a cidade pareceu dividir-se em áreas restritas, dominadas por atividades e atores que dominavam e aproveitavam ao máximo a posse, mesmo que temporária e indesejada por muitos, daquela parte que um dia respirou ares de nobreza. Seguindo pela Barão de Itapetininga, sonhos de emprego estão perambulando pelo calçadão, em forma de homens placa, em agências de emprego a céu aberto, em postes que anunciam vagas para todos os gosotos, necessidades: recepcionistas, vigilantes, pequenos homens engravatados são procurados por escritórios de advocacia, comunicadores com carro próprio têm vagas garantidas no centro da cidade. Os homens placa andam pra lá e pra cá, repetindo mantras indecifráveis, comprando ouro, vendendo documentos, consultas médicas. A cabeça gira sem obedecer ao corpo que pretende andar rápido, em linha reta, sem prestar atenção aos vendedores de crédito, jovens empregados de primeira viagem que pegam-te pela mão e tentar convencer aos homens que usam sapato que os sonhos estão ali pertinho, a juros baixinhos e super condições de ressarcimento da dívida. Como é bom andar de tênis, calças velhas e camiseta, totalmente fora do público alvo, que é caçado pelos vendedores, sempre de cabeça baixa, procurando no povo os sapatos, a cara de pai de família, o olhar sofrido de quem precisa de um amigo que pague suas dívidas. Os vendedores dividem sem problema o seu espaço com os vendedores de DVD, o pesadelo das locadoras, que dão ao homem comum a opção de possuir um filme pagando menos do que é cobrado para tê-lo por um único dia em sua casa. O Viaduto do Chá reserva sua elegância para as mulheres que fazem contao com outra dimensão, escondidas atrás de guardaçóis e sombrinhas, dão privacidade a quem quer saber antes da hora o roteiro de suas vidas. Búzios, cartas, mãos, qualquer outra coisa serve de meio de comunicação entre o passado, o futuro e o presente e para isso, senhoras que acreditam em muitas coisas desembolsam pequenas cotas a troco de informação privilegiada. A Praça da Sé, por mais quadrada e espaçosa que pareça, também está dividida em nichos de trabalho ou da falta do mesmo. Ao fim da Rua Direita estão as ciganas, que preferem vender os serviços de vidência em pé, chamando a clientela com um sincero e grudento aperto de mão. Será que aprenderam a técnica com os promotores das lojas de crédito? Ao lado estão os sapateiros, desalojados de seus endereços, oferecendo engraxadas, meias-solas e trocas dos saltinhos altos que perdem-se em meio aos buracos das calçadas. Homens pregam sua fé, repetitivos e indecifráveis, com seu olhar fugidio, sendo questionados por outros homens que não dividem os mesmos dogmas. Apoiados por irmãos que gritam aleluia. Alheios aos momentos de salvação na Terra, os "perdidos" permanecem sentados nos bancos à esquerda da Catedral, formando famílias temporárias, laços perdidos no meio da confusão paulistana ali são reatados, momentos ou dias intermináveis são dividisos entre amigos que olham para o infinito, numa improvável reunião em torno de merda alguma. ?Um trio de homens que tocam forró tenta a sorte e algumas moedas, com camisas floridas, em verdes gritantes, mas, assim como acontece com a menina-boneca-estátua-viva, as moedas não vêm, não há dinheiro disponível na praça para ser gasto com essas coisas de arte. Mais um homem placa anda pra lá e pra cá, ao lado da igreja, vendendo qualquer coisa que alguém queira comprar, repetindo coisas sobre ouros e dólares. A avenida Liberdade aparece logo após a praça João Mendes, onde pode-se comprar bonitas flores a preços justos, prenunciando um mercado de mulheres de corações vagos, que alugam seu amor em quartos apertados, por hora, por tarefa, por noite, mas que sonham em doá-los um dia para alguém que saiba amar pura e simplesmente, como o verbo intransitivo que é. Piscadela, a mulher tem calças apertadas e um olhar lânguido, um tanto forçado, quem sabe, até, vulgar. Não, ainda não é o serviço que procuro, mas agora sei bem onde procurar por cada coisa naquele centro. Uma senhora atravessa a rua correndo ao meu lado, com passos e aquele sorriso de quem um dia sonhou em ser uma gueixa. A cabeça faz sinal de positivo, o destino está chegando. Enfim, japoneses vendem cogumelos baratos em seus mercadinhos de produtos indecifráveis. Uma bandeja basta por hoje. Uma latinha de chá de leite, iguaria vinda de Hong Kong de sabor agradável, mas que requer uma segunda chance antes de tornar-se tão agradável. Pronto, a caminhada chegara ao fim. Enfim achara o que queria, torcendo para que o centro continue a exisitir daquels jeito, com seus clientes e vendedores para tudo, e para todos.

Ouvindo: Ez3quiel - Requiem