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Tuesday, April 12, 2011

Juventude inocente

- Caralho, demorou pra caralho, hein?
- Pô foi mal, tava tirando uma grana da velha.
- Vambora que tamo atrasado pra aula, caralho.

Estavam realmente atrasados. A uma hora dessas o prof. Clóvis estava na segunda lousa da arrastada aula de semiótica. Júlio e Cabeça queriam e precisavam atravessar a Zona Oeste inteira para poderem, ao menos, assinarem a lista.

- Pô Júlio, vamo dar um tirinho antes de ir nessa.
- Caralho, hein, Cabeça, teu apelido fala tudo mesmo. Segura aí.
- Valeu, Julião.

Cabeça estica duas carreiras na capa do caderno. Seu ar sereno está prestes a dar lugar a um verdadeiro lobisomem dominado pelo efeito da branca. Cheira. Passa o canudo. Júlio cheira, dá a partida e limpa o nariz.

- E aí, quanto você descolou?
- Peguei só 150 conto. Foi foda, a velha tava afim de ajudar a gente não, viu?
- Caralho, hein, Cabeça, cê já foi melhor nisso né?
- Pô, foi mal, aí. É o que eu consegui arrumar com a velhinha.

Júlio coloca cada vez mais peso no pedal do acelerador. O carro segue o ritmo de sua cabeça, que gira agora em 3ª marcha, bem esticada, com o torque ao máximo. Seus olhos estão mais acesos que qualquer farol.

- Acelera aí, Julião. Tem que chegar nessa aula logo, caralho.
- Qualé, Cabeça? Tá com pressa de escolinha agora?
- Pô, temo que chegar logo. Vambora aí, acelera essa porra aí.

Pé na tábua, manobras agressivas, sinais vermelhos. Nada retarda a pressa da dupla de playboys que dirige rumo à Pontifícia Universidade. Estão no fim do segundo ano, mas são amigos e parceiros desde o dia em que se viram.

- E a velha, tá tudo em cima com ela?
- Acho que agora tá.
- Como assim?
- É que..
- É que o que, caralho?

Júlio espuma pela boca, não olha mais o que tem à frente de seu carro. A cocaína é agora sua dominatrix e faz o que quer com sua mente. Cabeça fala, entre o pilhado e o indeciso:

- Tive que mandar ela pro caralho, Julião.
- Filho duma puta. Falei que não era pra matar, caralho.
- Pois é, Julião, foi mal. Bora chegar na facul logo, mermão.

A pressa aumenta.


Ouvindo: Bomba Stereo - Fuego

Wednesday, March 23, 2011

Homem é homem, mulher é mulher...

Depois de passar o corredor da carceragem do 3º DP aos berros de 'me bota aqui não, dotor', Gilsinho foi atirado pra dentro da cela nº 2, com capacidade para 6 detentos, mas que na época suportava 22. Cientes do boato que o novato tinha caído no artigo 213, os habitantes da cela estavam mais que ouriçados. 'Aê, já era, esse aí é meu'. 'Passa o rabo dele pra cá'. 'Vai morrê, cuzão!'. Cocão, o dono da cela, tratou de acalmar a família. Com o indicador cruzado na frente dos lábios, fez shhhhhhh e todos calaram. 'Vem cá que eu quero te dar um papo, irmão'.

Gilsinho não para de tremer e está todo mijado, além de escoriações múltiplas pelo corpo, cara inchada e sangue seco e craquelado por toda a sua pele. Não se pode dizer que ele se acalma, mas o simples fato de todos obedecerem ao pedido do chefe da cela o deixa menos apavorado. Cocão dá a palavra, num tom relaxado e curioso:

- E aí, irmão, caiu no 213?
- Foi sim.
- Conta aí como foi...
- Pô, como assim. Tô arrependido, já apanhei que nem cavalo...
- Fala aí, irmão, como foi, rebentou a menina na piroca?
- Pois é...
- Então essa vai ser a gozada mais cara da tua vida, rapá. Aê Nelsinho, chega mais, busca a roupa dele lá!

Todos os detentos comemoram em alto e bom som.

Nelsinho é o braço direito de Cocão, odediente como um cão perdigueiro. A 'roupa' é uma calcinha de fio dental, costurada pelos travestis da cela 3, reforçada nas costuras, resistente e rendada. Parece que Gilsinho se mijou mais uma vez. Nelsinho encontra a calcinha embaixo de seu colchão e joga na mão do novato. 'Veste essa porra aí, mermão'.

Cordas de varal, camisinhas, lanternas, é inacreditável a quantidade e variedade de coisas que os detentos conseguem colecionar em seu cotidiano moroso. A família pendura Gilsinho na grade, os pés distantes um palmo do chão. Está preso de frente para as grades, amarrado pela frente da calcinha. 'Nelsinho, tem que lavar esse porra aí, mano'. A ordem de Cocão é cumprida em segundos com uma ou duas canecadas de água na linha da cintura do detento. 'Hoje vamo brincar de poste, moçada. Quem vai primeiro?'

Nelsinho levanta a mão e logo pede ao patrão: 'Posso rabiscar no poste, Cocão?'. Permissão dada, Nelsinho pega a gilete e escreve, começando as palavras entre os ombros de Gilsinho e terminando na lombar:

"Familia 3º DP  
Estrupado é diferente
Sem perdão
Rabo da geral"

Enquanto o sangue escorre, Nelsinho se prepara para sodomizá-lo. Enquanto o faz, faz juras de amor eterno à noiva da cela. 'Agora tu é nossa, vai servir a geral aqui. Fica calmo, você ainda se acostuma e gosta, menina'. Os outros detentos fazem um burburinho na tentativa de organizar uma fila. Xeroso, o mais jovem dos prisioneiros, fica de canto, desinteressado da brincadeira dos irmão. Cocão logo vê e ordena: 'Tu é o próximo lá, irmãozim'. 'Gosto de cu de homem não, Cocão, na boa.' 'E quem falou que essa porra ai é homem? Tu é o próximo'.

Gilsinho só se lembra da história até aí e é isso que ele conta para o delegado Matoso, entre soluços e tremedeiras. Gilsinho implora com toda a sua emoção para que seja colocado no seguro.

Ouvindo: IAM - La Fin de Leur Monde

Friday, January 28, 2011

José e Paulinha: uma história de amor - parte 2

- Oi tia, olha, esse aqui é o Zé, meu namorado.

Mirian esboça uma reação quase tirando os olhos da tela da TV, que transmite os momentos finais de Araguaia:

- Ahn?

- Prazer, José - o namorado se antecipa.

- Ah, oi.

Mirian tem 42 anos e gosta de TV. Mirian gosta mesmo de TV com conhaque e cigarro e pode passar a vida toda colada no sofá. Mirian queria que a sobrinha Paulinha fosse mais parecida com a índia Estela, estrela de sua novela. Miriam é feia e sabe disso - "é a idade, né gente?". Na verdade, Mirian sempre fora feia e a idade tinha pouca culpa nesse processo. Mirian conheceu Paulinha no enterro de Marta, sua única irmã. Desse dia em diante, Mirian e Paulinha formariam o que chamaremos aqui de família.

Mirian nunca fez sucesso entre os homens que conheceu. Mirian nem gosta tanto assim de homem. Paulinha sentiu isso desde cedo durante a supervisão de banho ministrada pela tia. "Tem que ver se tudo tá limpinho, menina, deixa a tia dar uma olhadinha". A passagem das alisadas para as dedadas, do chuveiro para o quarto, das bolinadas maliciosas às linguadas explícitas, todo o processo não demorou mais que seis meses. Paulinha tem nojo de Mirian. Desde sempre. Para sempre.

- Fica a vontade aí, João - Mirian fala sem vontade de olhar na cara do sujeito.

- É José, senhora.

Há exatos 45 minutos atrás, José não tinha planos de tornar-se o namorado de Paulinha. José queria, José só pensava em matá-la dentro do quarto sujo e barato. Paulinha ainda preparava a cena para seu trabalho, abrindo as cortinas para arejar o clima. José vem atrás e fecha o pano com um gesto brusco.

- Que é isso, gato? Tá muito quente aqui.

- É que tem os vizinhos, gosto de gente me olhando não.

- Esse pessoal aí não liga pra essas coisas, tão tudo acostumado já.

José não liga, deixa a cortina fechada. Paulinha, de frente pra cama, tira lentamente a calça apertada que demora em descolar de seus quadris. Rebola de novo. Provoca. José vai atrás e agarra Paulinha pelo pescoço, usando toda a força de suas duas mãos.

- Calma, lindo. Você gosta bruto, assim? - Paulinha continua lânguida, serpenteando seu quadril de encontro ao sexo de José.

José sente algo diferente. Não era mais aquele desejo que o consumia há tempos. Era algo diferente, sim, aquilo era puro e simples tesão. Tesão por uma puta barata, em um quarto sujo. José afrouxa a pegada no pescoço de Paulinha.

- Gosto sim. Você topa?

- Claro, lindo.

José parte para cima de Paulinha para fazer o melhor sexo de sua vida. José tem gana, José tem gás, tem um apetite feroz pela carne da puta que o serve na cama. Fode como um animal, sem querer parar, sua última chance de mostrar ao mundo seu potencial como macho. Quinze minutos depois, cai pro lado, exausto. José chora copiosamente, soluçando como uma criança assustada. Paulinha adorou José - "puta não tem tesão, mas tem vezes que acontece, né, moço?". José se confessa. José conta seus desejos mais macabros. Paulinha sabe que escapou da morte. José faz juras a Paulinha. Paulinha sente também que ama José. Paulinha e José seguem andando para a casa de sua tia.

- Então, é José, senhora. - José ainda sente o peito apertado e odeia a desatenção de Mirian. A veia de seu pescoço palpita. A testa está suada e as mãos estão trêmulas. Paulinha sente conhecer José, estão ligados de corpo e alma nesse amor bandido. Paulinha sugere:

- Zé, você não prefere que a gente feche a cortina?

Mirian não liga para a fala de Paulinha. Mirian quer que os dois se fodam. José responde com um sorriso malicioso em seu rosto. José sabe que Paulinha sabe que ele quer matar. Matar ali mesmo, matar agora e deixar fluir o desejo em seu corpo.

- Fecha sim, amor.

José investe com toda sua força contra o pescoço de Mirian e aperta até ouvir as cartilagens do pescoço da velha nojenta crepitando contra seus dedos, que estão roxos. Mirian desfalece com os olhos virados pro alto, baba grossa e farta escorre de seu queixo. Mirian está morta. Paulinha e José estão felizes e trocam olhares de cumplicidade. Com as cortinas fechadas, comemoram seu amor ao lado da tia morta.

Ouvindo: Roots Manuva - Snake Bite

Thursday, January 27, 2011

José e Paulinha: uma história de amor

Paulinha tem 17 anos - "mas não conta pra ninguém não, viu, moço". Paulinha tem os cabelos longos e alisados às pressas, com as pontas finas e frágeis. Ela veste calças muito apertadas, nota-se um pneuzinho que insiste em fazer a divisa entre a calça e o top. Pneuzinho provocante, mordível, apetitoso. O top tem uma alça pendente e o sutiã de oncinha aparece por onde quer que ela balance seus quadris pelo centro da cidade.

Paulinha tem cara de índia brava, os olhos levemente rasgados, a pele morena e desfavorecida pela maquiagem barata. Paulinha é sozinha - "na verdade eu moro com a minha tia, moço, mas isso aí tanto faz". Paulinha é sozinha porque sua tia é amiga da TV, do conhaque e dos cigarros de filtro branco. Paulinha quer que sua tia se foda. Na sua boca, carnuda e pintada em vermelho abundante, ela é uma "garota de pograma" - "mas tem gente que adora chamar de puta, né moço?". O que Paulinha quer mesmo da vida é foder com o mundo inteiro.

José tem 52 anos, mas em sua boca rodeada por um bigode pra lá de nojento, insiste em comentar que aparenta 45. Veste traje social completo, ritual que repete todos os dias úteis desde 1984. Bancário convito, amante do stress cotidiano, fuma inveteradamente e toma café sempre que tem uma chance.

José é sozinho. Na verdade, tem mulher e dois filhos. Mas José não tem tempo pra essas bobagens de carinhos e chamegos. José quer que sua família se foda. Há alguns meses, uma sensação estranha aumenta ainda mais o nó na garganta causado pela gravata colorida que o acompanha sempre. Um tipo de  ar preso no peito, uma ânsia, uma vontade esquisita que não lhe dá paz. Em seu íntimo, José sabe que sente um desejo incontrolável de matar. José quer foder o mundo inteiro.

José passa pela rua, passo apertado e olhar perdido, pronto para ser fisgado por qualquer outro olhar que passeasse pela R. Libero Badaró às 17h14 daquele dia. Paulinha está parada na calçada, com as costas coladas  à parede, mexendo descompromissadamente na alça pendente de seu top. Paulinha joga olhares para todos os lados. O seu olhar encontra o de José. José responde ao seu olhar, simplesmente sem desviar o olho à primeira instância.

A experiência de Paulinha fala alto. Paulinha sabe bem reconhecer boas oportunidades de negócio. Tiozinho com cara de vendedor, suado, bigode amarelo de cigarro: dinheiro rápido e fácil. Dez minutos olhando para o alto enquanto o cliente faz seu vai-e-vem desajeitado, resfolegando em cima da serviçal e amaldiçoando o clímax que chega cedo demais.Um lencinho pra ele, um banheiro pra ela, dinheiro no bolso e já era. Paulinha tem certeza do roteiro e convida:

- Bora fazer um amor gostoso?

José não é do tipo que come putas. Por mais que seja um canalha convicto, dizia ter nojo daquilo. Mas a sensação que o acompanhava há tempos apareceu galopando em seu peito, pôs seu coração em disparada, os olhos arregalados, o suor na testa, tudo indicava: chegou a hora. José topa.

- Vambora.

Paulinha sobe as escadas na frente. Rebola propositalmente para antecipar uma semi-ereção que lhe pouparia uns 3 minutos de trabalho. José sobe atrás. Desinteressado diante da bunda que balança à sua frente, José só pensa em matar. Paulinha abre a porta do quarto, deixa a bolsinha na cadeira, abre as cortinas para arejar o quarto do moquifo alugado a 10 reais. José vem atrás, mas não concorda com a cortina aberta diante da vizinhança. Fecham-se as cortinas, começa o espetáculo.

Ouvindo: Birdy Nam Nam - Jazz it at Home

Thursday, January 20, 2011

Soldado de chumbo

X-E-R-O-S-O. Termina a demorada tarefa de marcar seu novo apelido na parede do barraco. Nem tão demorada como o processo de aceitação da alcunha. Tudo mudara depois da operação limpeza deflagrada pelo governo carioca. Muita polícia, muito milico, cagueta a dar com pau e a atividade teve que diminuir.

A boca agora funciona na encolha. Muito longe dos dois quilos do branco e 50 do preto que saíam por mês antes da invasão. Cidão, antes gerente do preto, hoje é o frente e vive entocado de barraco em barraco. Os 35 soldados estão reduzidos a 3. A maioria é vapor - desce o morro com mochilas nas costas e sobem com dinheiro no bolso. Eram 23 moleques, entre eles, Nequinho, filho da dona Marli, 12 anos, 1,35m de altura, 32 kilos pesados na farmácia da esquina.

Nequinho ganhou apelido novo dois dias depois que o Caverão subiu o Morro dos Mineiros. Assim que viu o carro preto subindo, subiu o morro na frente, metade da mochila carregada de mercadoria, berrando esbaforido:

- A máquina de matá pobre tá subindo. Tá subindo, vão matar geral, aê!

Nequinho é um menino obediente e focado. Sempre de orelha em pé para as dicas dos soldados e do patrão. Enquanto gritava, lembrava: 'pode ir pra casa não, mermão, passam o rodo na tua família toda se não te acham lá'.

Virou de surpresa numa viela à sua esquerda, entrou por baixo do barraco do Seu Quinze e pulou com fé no valão do esgoto. 'Só saio daqui morto, esses alemão não me pega nem fudendo, aí'. Repetia o mantra enquanto espantava ratos, baratas e tudo mais que passeia pelo esgoto e insiste em colar em seu corpo.

O tempo passa devagar e, ao meio dia de um dia quente, a vala é um lugar ingrato. O cheiro de podre entorpece Nequinho, que não pode desistir, não pode desentocar antes que os inimigo dêem pé da favela. Sonha alto - ou talvez alucine de fome, de enjôo, de cansaço. Quer virar soldado logo, andar de quadrada enfiada no bermudão, comer as mina geral, botar um Nike no pé, tomar Red Bull, cheirar até umas horas, virar sujeito homem e não largar dessa vida nunca mais.

No fim do segundo dia enfiado na sujeira, Nequinho ouve o aviso dos fogueteiros - somente foguetes de um tiro só, estourados um a um durante um minuto seguido por uma salva de "treme-terra" de 12 tiros. A senha exata para saber que a polícia sumiu dali. Na base do arrego ou por ordem do governador, o que interessa pra ele é que ele tá salvo.

Tira a cara do buraco e percebe como os ratos vêem a gente, olhando por baixo, sujo e malvisto. Limpeza, o vai e vem de sempre, tudo "normal". Resolve meter o corpo pra fora e subir até a boca, falar com o Cido, mostrar seu heroísmo e a meia carga que ainda conseguira salvar na mochila. A visão de tantos rostos desolados na subida do morro deu a pista para o que o moleque iria encontrar lá no alto. O patrão não se anima muito quando vê Nequinho chegar na boca, mas assim mesmo abre o canto da boca com um sorriso de dentes pretos e finos.

- Caralho, que cheiro é esse, Nequinho?
- Na moral, tava entocado, aí. Tava lá na vala.
- Aê Cheroso!
- Qualé, Marcão, dei mole não rapá.

Aos 16 anos de idade, Marcão era o melhor soldado da boca e foi um dos três que sobraram em pé depois que Cido ordenou que começassem a trocação com a polícia. 90% dos soldados morreram - de tiro trocado ou de execução, o fato é que nenhum dos moleques saiu dali preso. A sorte de Cido é que levaram Cotoco, chefe da endolação, em seu lugar. Ouviu tudo por debaixo do barraco, mas não deus as caras enquanto Cotoco era esculachado e forçado a dizer que era o gerente, o Cido da Biqueira. O patrão do morro sumiu um dia antes da invasão.

- Já é, aé, agora tu vai ser o Cheroso.

A palavra do chefe era palavra final.

- Tu sabe atirá, rapá?

Era a primeira vez que Nequinho, agora conhecido como Cheroso, não era tratado por moleque. Sem hesitar, mandou na lata:

- Claro que sei, ué.

-Então pega nessa quadrada que agora tu subiu de posição. Agora tu é soldado, irmão. Marcão, joga um radim na mão do Cheroso. Agora é tu, Cheroso e o Berola. Quem é o frente dessa porra aqui, caralho?

- É cê mesmo, Cidão. O baguio aqui é CV, tá ligado?

- Já é! Junta lá com o Berola e vamo metê atividade nessa porra, precisamo levantá a boca, ganhá uma merreca aí pra se sustentá.

Cheroso vira as costas e começa a descer o morro. Quer muito participar de um bonde e sentar o dedo nos inimigos. Sonha calado em participar de um bonde, daqueles bem sinistros, que vão entrar pra sempre por anedotário popular das favelas cariocas. Cheroso quer ser herói.

Ouvindo: Da Weasel - Dialectos da Ternura

Wednesday, December 01, 2010

Soldado morreu, antes ele do que eu

- Mete a cara aí, recruta. Sobe até aqui pra dá essa de rato, rapá? Mete a cara logo que eu vô te matá, arrombado!
- Se entrega aí, Fabrício. É melhor pra todo mundo. Pensa na sua mãe. Dá pra tu escapá daqui não, cê sabe.
- Fabrício é uma porra, soldado. Tomá no cu, milico do caraio. Cê era favela e agora tá pagando de matadô do governo. Alemão do caraio. Eu sô o Brasa, morô, neguim?

Fabrício e o neguim se conhecem desde pivetes quando sua vida se resumia a fliperama, tubaína e uns assaltozinhos de trombadinha. Neguim antes tinha nome - Renato. Aos 18, Renato virou Soldado Gonçalves. Aos 17, Fabrício virou o Brasa, gerente de pó do morro do Vidigal. Soldado nunca mais tinha posto os pés no morro - na verdade, aparecia vez ou outra, mas entrava e saía de fininho, sem chamar a atenção do pessoal do movimento. Dois anos depois, Fabrício e Renato se encontram na virada da viela, cada um no seu canto, cada um na sua luta. Cada um com seu fuzil.

- Sai voado daqui, neguim, essa guerra né tua não, viado!
- Tô trabalhando, Fabrício, posso dá mole pra ti não.
- Arrombado do caralho, filho dunha puta do caraio. Porra, neguim, vô te quebrá, rapá. Some daqui, porra!
- Vai dar não, aê. Tem mais soldado subindo, se entrega na minha mão que eu te levo preso lá pra baixo. Se os cara subí vai ser pior, vão te sentá o dedo.
- Vai prendê o caraio, viado. Prende porra nenhuma. Tô te vendo neguim, tu tá na minha mira, vô te passá o rodo, arrombado.

O coração de Renato perde um pouco do compasso - assim como perdeu o compasso quando Fabrício deu o primeiro tiro na cara de um coroa que tava fazendo onda por causa de uma correntinha. Renato sabe que Fabrício não blefa. Seus olhos têm medo de tudo que vê, o Soldado tateia o ar com seu fuzil, mira em tudo que se mexe. Seu nariz não gosta do cheiro que sente e seus ouvidos tremem ao que ouvem:

- Eu vô te passá agora, neguim. Vô contá até dez pra você sair de pinote daqui. Vira as costa e vaza, morô?

O Soldado Renato se sente cada vez mais desprotegido naquela viela - viela que era endereço da Tia Dirce, a mãe de criação dos dois meninos de caminhos cruzados. Talvez seja hora de aceitar o conselho do amigo, dar as costas e sair dali o mais rápido possível. Dar baixa do Exército, sumir, ir morar na baixada, plantar umas plantinha, criar umas galinha e que se foda o resto dessa porra toda.

- Valeu Brasa, tô dando pé - acreditava na palavra de Fabrício, achava que realmente estava na mira e o melhor a fazer era se dar por vencido.
- Boa, recruta. Some daqui. Olha pra trás não, rapá - falava com a voz mais mansa, tentando acalmar o Soldado Gonçalves.

- Tô saindo, então.

Essa foi a última frase de Renato, vestido e armado em Soldado Gonçalves. Foi a sua última fala que denunciou sua posição - e foi o primeiro blefe de Brasa, fazer o inimigo acreditar que ele realmente estava na mira. Fabrício mira calmamente as costas de Renato:

- Aê arrombado, perdeu, cuzão.

O primeiro movimento da cabeça de Renato, que fazia menção de olhar pra trás, culmina com o dedo no gatilho do fuzil. O primeiro tiro vara o corpo do Soldado e o segundo o joga no chão. Jaz no chão preto e fedido do Vidigal.

- Aê otário do caralho! Vai acreditá em bandido, vacilão.

Ouvindo: NTM - Assasin de la Police

Monday, November 29, 2010

18 mil barracos e 1 neguinho trabalhador

-Abre a porta aí!
- Só um minutinho, senhor.

Arranca a remela do olho, passa a mão em cima da cabeça e tira bastante fiapo de coberta do cabelo duro. Abre a porta.

- Polícia. Com licença de revistar a sua casa, meu rapaz.
- Pois não - fala como se não tivesse outra opção além abrir caminho e deixar os quatro homens encapuzados e bem armados adentrarem o barraco de alvenaria na Travessa dos Pombos, nº 32.

Zé Roberto tem 16 anos. É preto, alto e magro. Veste bermudão da Conduta e regata Hurley. Nos pés, chinelo de dedo, com os quais nunca sai do seu barraco. Pra sair, Nike e Puma são suas preferências.

- Trabalha?
- Trabalho sim senhor - fala como se isso não fosse nenhum absurdo. Totalmente normal um pretinho trabalhador de dezesseis anos. Os outros homens vasculham o barraco enquanto o sargento Frias segue na enquete:
- Trabalha com que, rapaz?
- 'trego remédio na farmácia lá embaixo e gravo uns som com a rapazeada do funk aqui em cima
- Tem carteira assinada?
- Tenho não senhor - fala como se isso não fosse novidade para o policial, que nunca para:
- Tem passagem?
- Tenho não senhor, sempre fui trabalhador - fala enquanto o cabo Marinho interrompe a entrevista:
- Sargento, encontramo esse walkman e esse dinheiro do lado da cama do suspeito, senhor.
- É walkman não, senhor, é MP3.

Pau. Um soco na cara. O sangue não escorre. O sargento Frias limpa as costas da mão na calça da farda enquanto esbraveja:
- Cala a boca, moleque, cê acha que eu não sei o que que é isso?
- Desculpa senhor - fala como se fosse preciso pedir desculpas até mesmo por existir.
- É teu issaí? Comprou como issaí? Pode falar, rapaz, cê é do movimento, né não?
- Sou não senhor, sou trabalhador, senhor, nunca fui do crime não senhor.
- E esse dinheiro aí, onde você pegou?
- Tô guardando uma merreca pra gravar uns disco, senhor. O dinheiro é meu - fala como se isso fosse mesmo normal, um pretinho magrelo do morro com 1500 reais guardados em sua cômoda.
- Além de vagabundo é mentiroso, rapá. Vai falar onde você conseguiu esse dinheiro não, rapá?
- Sou trabalhador, senhor.

Pau. Outro soco na cara, esse vai direto na boca e derruba pelo menos três dos principais dentes de Zé Roberto. O cabo Mesquita e o soldado Saad voltam de suas buscas pelos barracos.
- Tem esses par de tênis aqui, senhor.

Pau. O terceiro soco na cara - nesse, Zé Roberto não consegue segurar a onda e cai mole no chão. Cabo Marinho aproveita-se e pisa a cara do neguinho contra o chão de cimento batido.

Aos gritos de "para com isso aí, senhor", "pelamordedeus", "sou trabalhador" - falava isso como se fosse normal que a polícia levasse um suspeito com dignidade - Zé Roberto foi algemado, preso e levado para averiguação.

Faltam apenas 18 mil barracos a serem averiguados - quase todos cheios de neguinhos de bermudão e chinelo. Sargento Frias tem um longo dia de trabalho pela frente.

Ouvindo: Emicida - Vai Ser Rimando

Wednesday, March 24, 2010

Josimar: cabra-macho e matador

Josimar chegou à cidade grande ainda jovem, imberbe, ou quase, uns pelos incomodavam ora aqui, ora ali, sempre juntando o suor em cima dos lábios. Josimar é magro e mede metro e setenta, setenta e pouco, última vez que mediu ainda tava na escola, lá no sertão do Pernambuco.

Josimar quando era moleque gostava muito de pião, quando mocinho gostava de rabo-de-saia, quando cabra-homem gostava de peixeira e rabo de galo. Procalmara-se cabra-homem aos 17 anos, idade quando conhecera Jeruza, fincara-lhe seu membro desajeitado, embarrigara-lhe e matara, diz ele que por acidente, Jacinto, irmão mais velho de sua mulé e projeto mal-acabado de cunhado.

Josimar, que é cabra-homem, não gosta de polícia e meteu logo o pé na estrada, subiu num pau-de-arara e veio pará em São Paulo, de bigodinho suado, banho vencido e bolso rasgado. Logo aprendeu que a peixeira não tinha vez nas ruas dessa cidade, que bolso vazio não pára em pé e que rabo-de-galo custa muito mais que do lado de sua casa, na venda de seu José.

Josimar logo conheceu seus conterrâneos, arrumou um canto num cortiço e um emprego numa cozinha. Arrumou um dinheirinho, suado, mirradinho. Ali na vizinhança conheceu colegas que também prezavam pelo risca-faca, arrumou um rabo-de-saia e logo virou o maior tomador de rabo-de-galo do bar de seu Joaquim. Aprendeu a cozinhar, fazia coxinha, picadinho, costela, mocotó, feijoada, rabada, buchada, peixada, macarronada, carne assada, galinhada e mais uma caralhada de prato que lhe dava nó nas tripa só de imaginar.

Josimar não comia no bar, tinha nojo daquilo tudo, da vontade tola das turmas que passavam por ali. Não agüentava os pedreiros bebendo tubaína com a boca cheia de comida, ficava sem fome ao ver os pedreiros limpando boca brilhante de gordura com as costas da mão, arrotando alto o feijão quase fervendo que comiam apressados para descansar na sarjeta antes de voltar subir aqueles andaimes sem fim.

Josimar gostava mesmo era de Jane, vizinha safada que mostrava o perigo que morava em suas saias toda vez que o paraíba era o próximo na fila do chuveirinho vagabundo improvisado no quintal. Rabo-de-galo, Jane e peixeira eram as coisas que ele mais gostava nesse mundo, assim nessa ordem mesmo e sua vidinha seguia entre o caminho de casa, o cortiço e a caminha suada de sua mulé.

Josimar passou dois anos nessa vida, servindo virado às segundas, bife à rolê às terças, quarta-feria era feijoada. Quinta tinha massa, sexta era peixe e a feijoada de sábado tinha cheiro de folga. Sábado às quatro da tarde era hora de cair na rua, atravessar a cidade, parar no seu Joaquim e encher o bucho com rabo-de-galo e qualquer tira gosto pra não cair no chão. Ensandecido, partia para o banho, goma no cabelo e Jane pro forró.

Josimar era cabra macho, sangue quente, honrado como um cavaleiro das histórias que os contadores que passavam pela sua vila fantasiavam. Josimar não gosta do jeito que Geraldo olha para Jane. Josimar deixa escorrer pelos lábios o último gole de rabo-de-galo, tomado às pressas, aos soluços, enquanto Geraldo funga o cangote de sua morena de cabelos loiros. Josimar treme das pernas, mas tem as mão decididas que miram na faca de cozinha em cima da pia do bar. Josimar agora é um só, cabeça, coração, entranhas, seu bucho cheio de cachaça, todo o conjunto do cabra que vinha lá de Cabrobró queria ver o sangue de Geraldo lavar a sua honra.

Josimar apanha a faca num instante, aperta em seu punho e anda com uma pressa cambaleante em direção ao casal. Josimar puxa Jane pelos cabelos e a joga no chão. Josimar dá a primeira facada nas costelas de Geraldo. Josimar tira a faca, o sangue espirra e logo dá uma no bucho do lazarento, outra no pescoço, o sangue pintando o salão. Josimar mata. Josimar comemora. Josimar resfolega, gira em torno do cadáver. O forró está parado, ninguém mais tem vontade de dançar. Josimar foge desembestado pelas ruas da cidade. Josimar encontra a polícia ao lado de seu quarto. Dentro da penitenciária, Josimar termina o relato de sua experiência ao lado dos irmãos do Reino das Testemunhas de Jeová.

Ouvindo: Gabriel O Pensador - Faça o Diabo Feliz

Friday, March 12, 2010

Breve homenagem a Glauco




Posso dizer que sou quase intocável pela violência, quase não me emociono com nada. Hoje ao chegar na firma me deu um negócio escroto ao saber da morte do Glauco, um embrulho no estômago, um arrepio maligno. Resumindo, quase chorei. Bandido safado, tu vai tombar na próxima curva. A diferença é que o Glauco vai ter enterro, tu vai pra cova rasa.

Mais do Glauco.

Ouvindo: Deep Purple - Sometimes I Fell Like Screaming

Friday, May 22, 2009

20 ao quadrado; quanto vale a vida de um policia na capital

A polícia anda rondando a minha vida e eu desconfio o porque. Todo dia, há mais de uma semana ela anda aparecendo em cada mensagem: na TV, Leonardo Pareja diz que nunca se entregaria na mão da polícia. No blog vejo frases como "Dos nove, só sobrou um para contar o que viu"; "Rapaziada levou chumbo de potentes calibres". Frases acompanhadas de fotos que até o diabo duvida da maldade. Mas o que me fode é quando pego um jornal qualquer e leio sobre o aniversário do dia do terror em São Paulo, os ataques do PPC e a retaliação da polícia.

20 funcionários da segurança pública, entre oficiais e ordinários, foram mortos durante o ataque da facção. 400 pessoas pagaram o preço, entre criminosos e ordinários, que deixaram a terra para aplacar a dor no coração dos polícias. Sei por que a polícia apareceu tanto pra mim, talvez por causa disso que escrevi naquele dia.

Vem...
Vem pra rua gambé cuzão. Vem pra cá porque aqui é seu lugar. Fica em casa não, folgado, agora é hora de ser homem. Bate na minha cara, agora tá com medo? Vem pra rua, PM cuzão, é você quem eu quero. Quero te ver na Paulista, quero você na sua base. O oitão não basta mais, cuzão? Vem pra cá, é em você que eu confio. Bota no cu de quem quer te foder, mostra que é macho pra caraio. Honra o Tobias de Aguiar. Vem que o pau é Aqui e Agora. Vem pra rua PM cuzão. Vem que o Datena tá chamando. Vem pra cá, eu tô na rua, mas cadê você? Será que se eu ligar você vem? Vem sim, tá todo mundo esperando. Vem pra rua, PM, o governador falou que tá sussa. Vem. Solta o cu da mão e vem. Sai da tocaia, limpa a cara e vem pra rua, PM cuzão. Vem pra rua gambé cuzão. Vem que eu confio em você. Vem que eu quero ver. Mostra quem manda. Mostra a "otoridade". Fala "teje preso". Bate na cara de cada um desses maloquero. Vem pra rua PM cuzão. Não esconde a farda atrás do armário. Não amarela não que não é hora. Sai desse armário, põe o colete e vem pro pau. Vem pra rua PM cuzão. Vem pra cá que a treta é agora. Vem pra rua. Vem!

Eles cumpriram a provocação. Um pouco de culpa minha. Aplicaram uma matemática copiada de tempos de guerra, quando a vida de um soldado valia X nativos. Dizem que na Sérvia a conta começou em 5 por um, depois quando viram já tava em mais de 100 pra um. Os polícia paravam o trem, contavam cem nego e mandavam o trem seguir. 100 mortos, tudo pago. Na humildade de brasileira, a polícia baixou a conta pra 20 pra um, resolveu a treta e voltou pra casa numa boa. Polícia sai do pé. Aquilo ali em cima não passa de uns escritinhos qualquer. Não era pra levar tão a sério. Viva o choque!

Ouvindo - Sabotage: O Rap é Compromisso

Tuesday, March 31, 2009

Cidadão Boilesen: to com raiva da ultragaz

Bode Expiatorio:O bode expiatório era um animal que era apartado do rebanho e deixado só na natureza selvagem como parte das cerimônias hebraicas do Yom Kippur, o Dia da Expiação, à época do Templo de Jerusalém. Em sentido figurado, um "bode expiatório" é alguém que é escolhido arbitrariamente para levar a culpa de uma calamidade ou qualquer evento negativo. A busca do bode expiatório é um ato irracional de determinar que uma pessoa ou um grupo de pessoas, ou até mesmo algo, seja responsável de um ou mais problemas.

Estou com raiva da Ultragaz e, antes que venham com deduções obvias, nao é por causa da musiquinha irritante dos caminhões que ja deve ter acordado cada um de voces pelo menos umas mil vezes. Tenho uma raiva que descobri a origem hoje, mas que remonta a tempos em que não era preciso musica para vender 32 mil botijões de gas por dia em Sao Paulo. Assistindo a uma sessão do Festival "é tudo verdade", descobri o diretor do Grupo Ultra, Henning Albert Boilesen como colaborador (em maior ou menor grau, de acordo com os acusadores e defensores) direto do regime ditatorial militar.

O Grupo Ultra, além de possuir uma linha direta com a Petrobras para a compra de GLP a preços e condições que nem sua mãe ofereceria, era encabeçado por um senhor dinamarques, naturalizado brasileiro que chefiava a turma da "caixinha", que reunia-se as quintas-feiras no assombroso edificio numero 1313 da Avenida Paulista para angariar fundos para o melhor andamento da repressão policial aos terroristas de esquerda.

A patota da caixinha, chefiada pelo então ministro da fazenda Delfim Neto, enchia um abandeja de prata com cheques destinados ao financiamento da Operação Bandeirante, além de prestar apoio material através de doação de equipamentos e tecnologia para os cabeças do DOI-CoDi.

O cidadão Boilesen, reconhecido pelos entrevistados pelo seu espirito esportivo, temia a fundo o caos e a barbarie que ameaçavam o pais, refletidos na figura dos comunistas e subversivos, colocou-se com seu espirito competitivo e uma metralhadora em punho ao lado dos milicos que arquitetaram o plano executado em 64.

Parece que o cidadão levou tão a sério sua luta para defender seus direitos que passou a tomar gosto pela punição daqueles que ameaçavam o futuro da nação, participando de sessões de tortura e alcançando o requinte de inventar um aparelho de tortura que se tornou a "coqueluche" de seus companheiros da Rua Tutoia.

Com o apoio de Boilesen e muitos outros que não mostraram tanto a cara, agora era possivel torturar terroristas de maneira metodica e cientifica, indo somente até o limite da capacidade do acusado de suportar as sessões, incrementadas agora com a engenhoca trazida pelo cidadão, acionada por teclas que descarregavam correntes em diversas intensidades. A invenção rendeu uma homenagem ainda maior que a rua no Butantã que leva seu nome: ficou conhecida nos porões como a "pianola Boilesen".

Certa vez, ao receber um premio de empresario do ano, Boilesen comentou com um amigo que aquilo não era bom, era preciso ficar somente nos bastidores. Esquecido de sua convicção, o cidadão Boilesen passou a ser figura contumaz na sede do Doi Codi, reconhecido por muitos dos terroristas que por ali passaram e não demorou muito para o seu nome aparecer em uma lista negra assinada por Carlos Lamarca. Inicialmente condenado ao sequestro, o réu foi sumariamente julgado a revelia e a pena de morte levou apenas alguns meses até ser executada.

Por ironia, morreu bem ali perto do prédio onde encabeçava a caixinha. A Alameda Casa Branca, perto do 1313 da Paulista, o edificio da FIESP, foi lavada com o sangue do cidadão Boile e com o mesmo sangue foi lavada a alma de alguns dos muitos terroristas que não conseguem até hoje esconder a satisfação com o sacrificio do grande bode expiatorio.

Boilesen escolheu o bode dele, apontando nos comunistas a necessidade de limpar o pais dessa ameaça. Os comunistas sacrificaram seu bode em praça publica. Delfim Neto foi visto andando por ai recentemente. Alguém tem que pagar e todos torcem para não serem a bola da vez. E ja que dizem por ai, "antes ele do que eu", grito bem alto na rua toda vez que ouço a maldita musiquinha: eu odeio a Ultragaz!

Ouvindo: Roots Manuva - Witness

Thursday, August 16, 2007

Small cigarrete business

-Small cigarrete business.
Era a unica frase que ele me disse repetidas vezes, sempre a piscar o olho esquerdo e a abrir um sorriso franco e misterioso. Coisa de moleque maroto, que estava a aprontar alguma e com aquele piscadela e aquele sorriso buscava meu consentimento. Sentou-se a minha frente naquela cabine suja, de estofados cor de vinho que ainda guardavam algum glamour das viagens de trem que se fazia em tempos remotos. Hoje o vagao servio que faz o demorado trecho Belgrado - Sofia nao carrega mais turistas ricos com suas familias barulhentas, nem homens de negocios com suas maletas de couro cheias de traquitanas, codigos, dinheiros e papeis valiosos. Sao apenas moleques viajantes com mochilas grandes e sujas pelas noites maldormidas em estaçoes, moleques que veem do brasil, da Holanda, da Espanha. O vagao acrrega sujeira, descuido, banheiros porcos. Parece que ha muito nao recebe passageiros dignos de sua limpeza. O controlador serve turkish kaveshi (o cafe turco, feito sem filtrar o po) pela modica quantia de 80 dinares servios. Nada mais para espantar a fome ou o sono.

A maior parte dos viajantes é composta por novos homens e mulheres de negocios, que carregam malas feitas em tecido barato, malas quadradas que nao contem mais os documentos, nao contem mais os papeis de outrora. As malas sao muitas e quadradas e carregam mercadoria que se transforma em ouro pelo simples cruzar de uma fronteira.

-Small cigarrete business.

O homem repete a frase, com a mesma piscada e o mesmo sorriso. Sorrio de volta dando o consentimento que ele tanto esperava. Neste momento meu amigo contrabandista transforma-se em um imparavel trabalhador. Bom seria se a companhia ferroviaria servia tivesse funcionarios tao preocupados com os trens como o homem que agora tirava a camiseta, exibindo uma tatuagem de estilo carcerario que dizia "ANA", sacou seus tenis Nike e logo estava pendurado nos braços das poltronas, com duas chaves de fenda na boca. Diante de mim ele desparafusava com maestria o teto da cabine e, em menos de 5 minutos, ele tinha o esconderijo perfeito para mais de 20 pacotes de Viceroy adquiridos em territorio servio. Como um ritual, sentou-se de frente para mim, calçou os tenis, vestiu a camiseta, piscou, sorriu e disse:
-Small cigarrete business.

O trecho entre Belgrado e Sofia possui 329 km de distancia e é percorrido pacientemente pelo trem em 8 horas, que sao passadas de maneiras distintas pelos passageiros. Os mochileiros dormem, olham pela janela, comem porcarias, contam historias e fazem planos para a Bulgaria. Ja os contrabandistas, que aumentavam a cada parada e ja dominavam facilmente o vagao passavam o tempo a negociar, sempre a mudar de cabine, a esconder coisas, a fazer e a receber ligaçoes no celular, numa tensao constante que fica estampada nos rostos de servios e albaneses que ganham a vida transformando 8 euros em 50 euros no final da viagem.

O amigo contrabandista teve um estalo e de repente, levantou-se diante de mim, piscou, sorriu, desta vez nao disse nada e começou mais uma vez o ritaul. Tenis, camiseta, chaves de fenda e rapidamente retitou parte do estoque de minha cabine e sumiu pelo trem. Acredito que ele fez isso umas 10 vezes, sempre seguindo o mesmo ritual, andando pra la e pra ca no trem. Foram tantas as mudancas que eu nao sei se ainda restava algo em minha cabine, o homem era imparavel e se ele conseguiu me confundir, eu que estava no trem desde o inicio, imagina o que ele podia fazer com a policia?

Depois de milhares de paradas em locais improvaveis e inexplicaveis (talvez a explicaçao para como percorrer 329 km em 8 horas), sobem ao trem os passageiros mais esperados pela parte nativa dos passageiros: a policia bulgara, composta pelos policiais "federais", vestidos em calças verdes e camisas brancas descuidadamente deixadas para fora das calças e a policia alfandegaria, vestida de brim azul um pouco mais bem cuidado. A policia federal passa primeiro a pedir passaportes com um olhar bastante parecido com o do amigo contrabandista. Um olhar um pouco desconfiado, de canto de olho, sempre a esperar pela sua reaçao. Tipo "sei bem que voce ta fazendo coisa errada, confessa logo que é mais facil".
-BraZil!!! Ronaldinho!!
-Yeah!!! Bulgaria!! Stoitchkov!!!
-Yes, Stoitchkov!!

Esse era o tipo de conversa que os policias do leste europeu costumavam ter comigo e o policial gordinho, com cara de filme bulgaro (acho que nunca assisti um filme bulgaro, mas com certeza teria um ator com a cara dele) nao decepcionou e lembrou-me de nosso craque de dentes tortos que abre portas assim como Pelé fez um dia. Depois dos passportes, era a vez da pergunta "anything to declare"? Nada alem de roupas sujas, uma maquina fotografica barata, um pacote de biscoitos, um pouco de tabaco e coisas pessoais. Mas eles nao estavam preocupados comigo, passavam pelas cabines com o olhar caracteristico, "eu conheço voces, sei bem o que voces tem, precisamos conver$ar). Passaportes passam para as maos dos policiais recheados de dinheiro num lugar onde 20 euros poder ser a diferença entre o sim e o nao. Os homens de azul olham com desprezo as malas quadradas e todos andam de um lado para o outro a conversar baixinho, uma negociaçao eterna. Nosso amigo parecia ter uma posiçao de liderança e passava por todas as cabines. De frente para mim um outro contrabandista, mais velho e menos ritualistico, arrumava um pacote, um tipo de "Happy Meal" em caso de nece$$idade: um litro de J&B e dois pacotes de Viceroy.

A negociaçao é ininitas, policiais entram e saem das cabines, mexem nos bolsos, fazem perguntas, ameaças. Do lado de fora do trem, os federais conversam sempre em segredo, com olhar grave. Nunca desejei tanto saber falar servio ou bulgaro, entender os termos que eles usavam. Imagina como fica em servio :"ai, mano, sujou pra voce, voce vai rodar com esse monte de cigarro ai, vamo te jogar na cadeia... é talvez temos um outro jeito pra resolver a situçao" .

Ficamos mais de uma hora e meia parados na fronteira. Agora era a vez das policias fazerem o acerto entre elas. Dinheiro vai, dinehiro vem, tudo na cara dura mesmo, nao ha testemunhas, ha contrabandistas, policiais corruptos e viajantes que nao entendem e nao falam um caralho na lingua local, totalmente desacreditados no caso de qualquer denuncia. Um contabandista é levado para longe dos olhares curiosos dos moleques holandeses, que acham tudo exotico, sempre tudo é uma grande experiencia. Brasileiros ficam um pouco mais preocupados quando a policia leva alguem de canto, mas era so para tirar mais um dinheiro de um contrabandista em particular. Sai da janela e sentei em minha cabine, onde o senhor guardava o pacote, desse vez nao precisou de tanto, o dinheiro foi suficiente para sustentar os pobres policiais bulgaros ate a chegada do proximo trem.

Tentei sair do trem para buscar algo para comer na estacao onde estavamos parados, mas recebi a gentil ordem de um dos chefes da quadrilha (de policiais):

-Back in vagon!

Sem problemas, senhor, estou aqui para obedecer. Alegremente, meu amigo contrabandista sai do trem, vai até o café e volta com dois copos de leite achocolatado. Sorri para o policial chefe e sobe no vagao. Era hora de partir. O trem sai lentamente da estacao fronteiriça, o tabaco havia virado ouro, a mercadoria estava a salvo. Contrabandistas seguem com infinitas negociaçoes, agora a moeda que manda é o euro. Meu amigo senta-se, pisca e sorri. Oferece-me um cigarro, nada de Viceroy, ele fuma Dunhill.
-This is my small cigarrete business.

Ouvindo: AC/DC - TNT (tinha um moleque bulgaro no trem, que desceu numa estacao que ficava no meio do nada que nos presenteou com um MP3 player com uma seleçao de roquenrol de responsa e umas caixinhas de som. Depois de umas duas horas de viagem, ele ligou o lance logo com TNT. Nessas horas temos a certeza que existe algum plano superior)