Thursday, January 27, 2011

José e Paulinha: uma história de amor

Paulinha tem 17 anos - "mas não conta pra ninguém não, viu, moço". Paulinha tem os cabelos longos e alisados às pressas, com as pontas finas e frágeis. Ela veste calças muito apertadas, nota-se um pneuzinho que insiste em fazer a divisa entre a calça e o top. Pneuzinho provocante, mordível, apetitoso. O top tem uma alça pendente e o sutiã de oncinha aparece por onde quer que ela balance seus quadris pelo centro da cidade.

Paulinha tem cara de índia brava, os olhos levemente rasgados, a pele morena e desfavorecida pela maquiagem barata. Paulinha é sozinha - "na verdade eu moro com a minha tia, moço, mas isso aí tanto faz". Paulinha é sozinha porque sua tia é amiga da TV, do conhaque e dos cigarros de filtro branco. Paulinha quer que sua tia se foda. Na sua boca, carnuda e pintada em vermelho abundante, ela é uma "garota de pograma" - "mas tem gente que adora chamar de puta, né moço?". O que Paulinha quer mesmo da vida é foder com o mundo inteiro.

José tem 52 anos, mas em sua boca rodeada por um bigode pra lá de nojento, insiste em comentar que aparenta 45. Veste traje social completo, ritual que repete todos os dias úteis desde 1984. Bancário convito, amante do stress cotidiano, fuma inveteradamente e toma café sempre que tem uma chance.

José é sozinho. Na verdade, tem mulher e dois filhos. Mas José não tem tempo pra essas bobagens de carinhos e chamegos. José quer que sua família se foda. Há alguns meses, uma sensação estranha aumenta ainda mais o nó na garganta causado pela gravata colorida que o acompanha sempre. Um tipo de  ar preso no peito, uma ânsia, uma vontade esquisita que não lhe dá paz. Em seu íntimo, José sabe que sente um desejo incontrolável de matar. José quer foder o mundo inteiro.

José passa pela rua, passo apertado e olhar perdido, pronto para ser fisgado por qualquer outro olhar que passeasse pela R. Libero Badaró às 17h14 daquele dia. Paulinha está parada na calçada, com as costas coladas  à parede, mexendo descompromissadamente na alça pendente de seu top. Paulinha joga olhares para todos os lados. O seu olhar encontra o de José. José responde ao seu olhar, simplesmente sem desviar o olho à primeira instância.

A experiência de Paulinha fala alto. Paulinha sabe bem reconhecer boas oportunidades de negócio. Tiozinho com cara de vendedor, suado, bigode amarelo de cigarro: dinheiro rápido e fácil. Dez minutos olhando para o alto enquanto o cliente faz seu vai-e-vem desajeitado, resfolegando em cima da serviçal e amaldiçoando o clímax que chega cedo demais.Um lencinho pra ele, um banheiro pra ela, dinheiro no bolso e já era. Paulinha tem certeza do roteiro e convida:

- Bora fazer um amor gostoso?

José não é do tipo que come putas. Por mais que seja um canalha convicto, dizia ter nojo daquilo. Mas a sensação que o acompanhava há tempos apareceu galopando em seu peito, pôs seu coração em disparada, os olhos arregalados, o suor na testa, tudo indicava: chegou a hora. José topa.

- Vambora.

Paulinha sobe as escadas na frente. Rebola propositalmente para antecipar uma semi-ereção que lhe pouparia uns 3 minutos de trabalho. José sobe atrás. Desinteressado diante da bunda que balança à sua frente, José só pensa em matar. Paulinha abre a porta do quarto, deixa a bolsinha na cadeira, abre as cortinas para arejar o quarto do moquifo alugado a 10 reais. José vem atrás, mas não concorda com a cortina aberta diante da vizinhança. Fecham-se as cortinas, começa o espetáculo.

Ouvindo: Birdy Nam Nam - Jazz it at Home

Wednesday, January 26, 2011

2011: tendências para a sua saúde

Como sempre fora de hora, meu amigo e confidente Milton Nacimento enviou a lista de tendências para 2011 que rabiscamos a quatro mãos numa tarde ensolarada entocados em um bar de nome estranho no centro velho da cidade.

A lista não deve ser levada a sério, tratam-se de palpites furados sobre o futuro do homem como manifestação da vontade divina na Terra. Nesta primeira publicação da longa lista, daremos as tendências na linha de doenças - das mais graves e reais às mais psicossomáticas.

Reclamose: tida por Milton como o novo mal da sociedade moderna. Não adianta reclamar, nada que possa aplacar seu estado lastimoso será feito. Inútil tentar sobreviver e passar por cima dos obstáculos, o sintoma mais grave toma a vítima de jeito e a impede de fazer qualquer coisa senão reclamar. Não há tratamento, nem na raiz do mal nem sintomático.

Medrite aguçada: inútil sair do lugar, fique em casa, coloque umas cobertas por cima do futuro cadáver e relaxe. O fim está perto. Aliás, acho que ouvi o fim bater na porta. Será subito, assustador, mas não passará imperceptível. O cavaleiro do apocalipse atacará suas vítimas olhando fundo em seus olhos. Só o medo salvará os doentes, cujo tratamento é por demais arriscado para que qualquer vítima dê uma chance ao azar.

Colorite: doença que ataca os pacientes pelas calças, passando pelos óculos e que, progressivamente, atinge todos os tecidos vestidos pelo enfermo. Caso passe para os cabelos, a colorite pode deixar o indivíduo inoperante diante da sociedade.

Aparecite: a falta de amigos palpáveis e reais, daqueles que você pode abraçar, correr lado a lado e arrotar abraçados enquanto correm já derrubou muitos, mas em 2011 terá seu auge. Inútil não tentar aparecer. Use seu tempo para mostrar ao mundo- sim, o mundo inteiro está de olho em suas peripécias digitais - o quanto você "r a nice guy'. Use idiomas estrangeiros. Alemão impressiona. Francês derrete corações. Russo quebra barreiras entre você e o topo do mundo. Apareça. Não há cura para isso.

Artrose, nevralgia, desvio de coluna, estrabismo: assim como nas últimas listas de tendências feitas por Milton, as doenças tensas só tendem a aumentar. Chegam de mãos dadas ao medo, às reclamações e todo o paparico do pessoal que assiste sua vida virtual. Há rumores que existam curas. Ainda duvido e achamos - Milton e eu - arriscado.

Ficamos por aqui, encerrando a publicação das tendências para 2011. Não tema nada. Milton Nacimento nunca entendeu muito sobre a vida. Nenhuma das doenças acima foram estudadas a fundo. Não há nada conclusivo sobre nada disso aí acima. Fique calmo, deite-se no sofá, uma coberta colorida, sintoniza no Datena. Não se esqueça de compartilhar tudo com seus amigos. Amigo é coisa pra se guardar. Tenha um bom dia, bom ano.

Ouvindo: La Caution - Thé à la Menthe

Thursday, January 20, 2011

Soldado de chumbo

X-E-R-O-S-O. Termina a demorada tarefa de marcar seu novo apelido na parede do barraco. Nem tão demorada como o processo de aceitação da alcunha. Tudo mudara depois da operação limpeza deflagrada pelo governo carioca. Muita polícia, muito milico, cagueta a dar com pau e a atividade teve que diminuir.

A boca agora funciona na encolha. Muito longe dos dois quilos do branco e 50 do preto que saíam por mês antes da invasão. Cidão, antes gerente do preto, hoje é o frente e vive entocado de barraco em barraco. Os 35 soldados estão reduzidos a 3. A maioria é vapor - desce o morro com mochilas nas costas e sobem com dinheiro no bolso. Eram 23 moleques, entre eles, Nequinho, filho da dona Marli, 12 anos, 1,35m de altura, 32 kilos pesados na farmácia da esquina.

Nequinho ganhou apelido novo dois dias depois que o Caverão subiu o Morro dos Mineiros. Assim que viu o carro preto subindo, subiu o morro na frente, metade da mochila carregada de mercadoria, berrando esbaforido:

- A máquina de matá pobre tá subindo. Tá subindo, vão matar geral, aê!

Nequinho é um menino obediente e focado. Sempre de orelha em pé para as dicas dos soldados e do patrão. Enquanto gritava, lembrava: 'pode ir pra casa não, mermão, passam o rodo na tua família toda se não te acham lá'.

Virou de surpresa numa viela à sua esquerda, entrou por baixo do barraco do Seu Quinze e pulou com fé no valão do esgoto. 'Só saio daqui morto, esses alemão não me pega nem fudendo, aí'. Repetia o mantra enquanto espantava ratos, baratas e tudo mais que passeia pelo esgoto e insiste em colar em seu corpo.

O tempo passa devagar e, ao meio dia de um dia quente, a vala é um lugar ingrato. O cheiro de podre entorpece Nequinho, que não pode desistir, não pode desentocar antes que os inimigo dêem pé da favela. Sonha alto - ou talvez alucine de fome, de enjôo, de cansaço. Quer virar soldado logo, andar de quadrada enfiada no bermudão, comer as mina geral, botar um Nike no pé, tomar Red Bull, cheirar até umas horas, virar sujeito homem e não largar dessa vida nunca mais.

No fim do segundo dia enfiado na sujeira, Nequinho ouve o aviso dos fogueteiros - somente foguetes de um tiro só, estourados um a um durante um minuto seguido por uma salva de "treme-terra" de 12 tiros. A senha exata para saber que a polícia sumiu dali. Na base do arrego ou por ordem do governador, o que interessa pra ele é que ele tá salvo.

Tira a cara do buraco e percebe como os ratos vêem a gente, olhando por baixo, sujo e malvisto. Limpeza, o vai e vem de sempre, tudo "normal". Resolve meter o corpo pra fora e subir até a boca, falar com o Cido, mostrar seu heroísmo e a meia carga que ainda conseguira salvar na mochila. A visão de tantos rostos desolados na subida do morro deu a pista para o que o moleque iria encontrar lá no alto. O patrão não se anima muito quando vê Nequinho chegar na boca, mas assim mesmo abre o canto da boca com um sorriso de dentes pretos e finos.

- Caralho, que cheiro é esse, Nequinho?
- Na moral, tava entocado, aí. Tava lá na vala.
- Aê Cheroso!
- Qualé, Marcão, dei mole não rapá.

Aos 16 anos de idade, Marcão era o melhor soldado da boca e foi um dos três que sobraram em pé depois que Cido ordenou que começassem a trocação com a polícia. 90% dos soldados morreram - de tiro trocado ou de execução, o fato é que nenhum dos moleques saiu dali preso. A sorte de Cido é que levaram Cotoco, chefe da endolação, em seu lugar. Ouviu tudo por debaixo do barraco, mas não deus as caras enquanto Cotoco era esculachado e forçado a dizer que era o gerente, o Cido da Biqueira. O patrão do morro sumiu um dia antes da invasão.

- Já é, aé, agora tu vai ser o Cheroso.

A palavra do chefe era palavra final.

- Tu sabe atirá, rapá?

Era a primeira vez que Nequinho, agora conhecido como Cheroso, não era tratado por moleque. Sem hesitar, mandou na lata:

- Claro que sei, ué.

-Então pega nessa quadrada que agora tu subiu de posição. Agora tu é soldado, irmão. Marcão, joga um radim na mão do Cheroso. Agora é tu, Cheroso e o Berola. Quem é o frente dessa porra aqui, caralho?

- É cê mesmo, Cidão. O baguio aqui é CV, tá ligado?

- Já é! Junta lá com o Berola e vamo metê atividade nessa porra, precisamo levantá a boca, ganhá uma merreca aí pra se sustentá.

Cheroso vira as costas e começa a descer o morro. Quer muito participar de um bonde e sentar o dedo nos inimigos. Sonha calado em participar de um bonde, daqueles bem sinistros, que vão entrar pra sempre por anedotário popular das favelas cariocas. Cheroso quer ser herói.

Ouvindo: Da Weasel - Dialectos da Ternura

Monday, January 10, 2011

O doce veneno que me levará pra longe daqui

Enfim encontrara a passagem que o levaria direto para o inferno, sem escalas, sem serviço de bordo, sem recepcionista nem fila de espera: cairia direto no colo do capeta, sem enrolação.

Havia dois meses que a ideia era fixa - aparecia na privada, na cama, estivesse só ou acompanhado, atrasado ou bem humorado: precisava morrer. Não era só um querer, era uma necessidade, tanto pra ele quanto para o mundo.

Era um homem de inquitações infinitas, mas a coragem era uma virtude que ele desconhecia. Ousado até chegara a ser vez ou outra, mas corajoso, jamais. Tinha medo até de gato filhotinho. Era um medricas.

Passou os dois meses recitando alto em sua cabeça: preciso morrer, quero morrer. Só o fim é minha salvação. Preciso morrer, quero morrer, só o fim.... E a ladainha ressoava o dia todo em sua mente.

Era um homem sozinho - o medo o impedia até mesmo de arrumar uma samambaia que alegrasse a sala da kitnete. A kitnete ficava no 1º andar - não que ele respeitasse o shabbat ou coisa assim. Era medo mesmo e o prédio não tinha apartamentos no térreo, que é bem mais seguro.

Sua passagem para o inferno estava diante de seus olhos, em cima da mesa, em frente à qual já estava sentado há duas horas. Fita o seu veneno, bilhete-só-de-ida dessa para melhor. Orgulhava-se da sua genialidade enquanto lembrava da chinelada que tomara na mão quando um dia tentou envenenar-se inocentemente com aquilo que hoje seria sua salvação.

Nada mais sublime que o doce veneno. Açucarado, até. Aquilo sim dava coragem de fazer. Só restava saber como: misturar os dois? Um de cada vez? Pegou na faca e começou a arranjar a manga, depois de decidir-se que tudo se misturaria no copo do liquidificador. Meio copo de leite, duas colheres de açúcar. Sempre fora um "formigão".

Liga na tomada, bate. Pronto. Senta-se novamente à mesa e bebe com gosto o veneno que o levaria para os braços de Satanás e longe dessa tortura que é viver. Passou três horas esperando pelo efeito mortal da manga com leite antes de começar a blasfemar. Nunca mais tomou leite, nunca mais comeu manga. E o pensamento insistente ainda habita sua cabeça, quiçá para sempre.

Ouvindo: AC/DC - Ride On

Wednesday, December 01, 2010

Soldado morreu, antes ele do que eu

- Mete a cara aí, recruta. Sobe até aqui pra dá essa de rato, rapá? Mete a cara logo que eu vô te matá, arrombado!
- Se entrega aí, Fabrício. É melhor pra todo mundo. Pensa na sua mãe. Dá pra tu escapá daqui não, cê sabe.
- Fabrício é uma porra, soldado. Tomá no cu, milico do caraio. Cê era favela e agora tá pagando de matadô do governo. Alemão do caraio. Eu sô o Brasa, morô, neguim?

Fabrício e o neguim se conhecem desde pivetes quando sua vida se resumia a fliperama, tubaína e uns assaltozinhos de trombadinha. Neguim antes tinha nome - Renato. Aos 18, Renato virou Soldado Gonçalves. Aos 17, Fabrício virou o Brasa, gerente de pó do morro do Vidigal. Soldado nunca mais tinha posto os pés no morro - na verdade, aparecia vez ou outra, mas entrava e saía de fininho, sem chamar a atenção do pessoal do movimento. Dois anos depois, Fabrício e Renato se encontram na virada da viela, cada um no seu canto, cada um na sua luta. Cada um com seu fuzil.

- Sai voado daqui, neguim, essa guerra né tua não, viado!
- Tô trabalhando, Fabrício, posso dá mole pra ti não.
- Arrombado do caralho, filho dunha puta do caraio. Porra, neguim, vô te quebrá, rapá. Some daqui, porra!
- Vai dar não, aê. Tem mais soldado subindo, se entrega na minha mão que eu te levo preso lá pra baixo. Se os cara subí vai ser pior, vão te sentá o dedo.
- Vai prendê o caraio, viado. Prende porra nenhuma. Tô te vendo neguim, tu tá na minha mira, vô te passá o rodo, arrombado.

O coração de Renato perde um pouco do compasso - assim como perdeu o compasso quando Fabrício deu o primeiro tiro na cara de um coroa que tava fazendo onda por causa de uma correntinha. Renato sabe que Fabrício não blefa. Seus olhos têm medo de tudo que vê, o Soldado tateia o ar com seu fuzil, mira em tudo que se mexe. Seu nariz não gosta do cheiro que sente e seus ouvidos tremem ao que ouvem:

- Eu vô te passá agora, neguim. Vô contá até dez pra você sair de pinote daqui. Vira as costa e vaza, morô?

O Soldado Renato se sente cada vez mais desprotegido naquela viela - viela que era endereço da Tia Dirce, a mãe de criação dos dois meninos de caminhos cruzados. Talvez seja hora de aceitar o conselho do amigo, dar as costas e sair dali o mais rápido possível. Dar baixa do Exército, sumir, ir morar na baixada, plantar umas plantinha, criar umas galinha e que se foda o resto dessa porra toda.

- Valeu Brasa, tô dando pé - acreditava na palavra de Fabrício, achava que realmente estava na mira e o melhor a fazer era se dar por vencido.
- Boa, recruta. Some daqui. Olha pra trás não, rapá - falava com a voz mais mansa, tentando acalmar o Soldado Gonçalves.

- Tô saindo, então.

Essa foi a última frase de Renato, vestido e armado em Soldado Gonçalves. Foi a sua última fala que denunciou sua posição - e foi o primeiro blefe de Brasa, fazer o inimigo acreditar que ele realmente estava na mira. Fabrício mira calmamente as costas de Renato:

- Aê arrombado, perdeu, cuzão.

O primeiro movimento da cabeça de Renato, que fazia menção de olhar pra trás, culmina com o dedo no gatilho do fuzil. O primeiro tiro vara o corpo do Soldado e o segundo o joga no chão. Jaz no chão preto e fedido do Vidigal.

- Aê otário do caralho! Vai acreditá em bandido, vacilão.

Ouvindo: NTM - Assasin de la Police

Monday, November 29, 2010

18 mil barracos e 1 neguinho trabalhador

-Abre a porta aí!
- Só um minutinho, senhor.

Arranca a remela do olho, passa a mão em cima da cabeça e tira bastante fiapo de coberta do cabelo duro. Abre a porta.

- Polícia. Com licença de revistar a sua casa, meu rapaz.
- Pois não - fala como se não tivesse outra opção além abrir caminho e deixar os quatro homens encapuzados e bem armados adentrarem o barraco de alvenaria na Travessa dos Pombos, nº 32.

Zé Roberto tem 16 anos. É preto, alto e magro. Veste bermudão da Conduta e regata Hurley. Nos pés, chinelo de dedo, com os quais nunca sai do seu barraco. Pra sair, Nike e Puma são suas preferências.

- Trabalha?
- Trabalho sim senhor - fala como se isso não fosse nenhum absurdo. Totalmente normal um pretinho trabalhador de dezesseis anos. Os outros homens vasculham o barraco enquanto o sargento Frias segue na enquete:
- Trabalha com que, rapaz?
- 'trego remédio na farmácia lá embaixo e gravo uns som com a rapazeada do funk aqui em cima
- Tem carteira assinada?
- Tenho não senhor - fala como se isso não fosse novidade para o policial, que nunca para:
- Tem passagem?
- Tenho não senhor, sempre fui trabalhador - fala enquanto o cabo Marinho interrompe a entrevista:
- Sargento, encontramo esse walkman e esse dinheiro do lado da cama do suspeito, senhor.
- É walkman não, senhor, é MP3.

Pau. Um soco na cara. O sangue não escorre. O sargento Frias limpa as costas da mão na calça da farda enquanto esbraveja:
- Cala a boca, moleque, cê acha que eu não sei o que que é isso?
- Desculpa senhor - fala como se fosse preciso pedir desculpas até mesmo por existir.
- É teu issaí? Comprou como issaí? Pode falar, rapaz, cê é do movimento, né não?
- Sou não senhor, sou trabalhador, senhor, nunca fui do crime não senhor.
- E esse dinheiro aí, onde você pegou?
- Tô guardando uma merreca pra gravar uns disco, senhor. O dinheiro é meu - fala como se isso fosse mesmo normal, um pretinho magrelo do morro com 1500 reais guardados em sua cômoda.
- Além de vagabundo é mentiroso, rapá. Vai falar onde você conseguiu esse dinheiro não, rapá?
- Sou trabalhador, senhor.

Pau. Outro soco na cara, esse vai direto na boca e derruba pelo menos três dos principais dentes de Zé Roberto. O cabo Mesquita e o soldado Saad voltam de suas buscas pelos barracos.
- Tem esses par de tênis aqui, senhor.

Pau. O terceiro soco na cara - nesse, Zé Roberto não consegue segurar a onda e cai mole no chão. Cabo Marinho aproveita-se e pisa a cara do neguinho contra o chão de cimento batido.

Aos gritos de "para com isso aí, senhor", "pelamordedeus", "sou trabalhador" - falava isso como se fosse normal que a polícia levasse um suspeito com dignidade - Zé Roberto foi algemado, preso e levado para averiguação.

Faltam apenas 18 mil barracos a serem averiguados - quase todos cheios de neguinhos de bermudão e chinelo. Sargento Frias tem um longo dia de trabalho pela frente.

Ouvindo: Emicida - Vai Ser Rimando

Monday, November 08, 2010

Oração para Pai Gerson

Post pago
Este post foi patrocinado por uma fonte que deseja permanecer incógnita. Pagando bem, que mal tem?

Oh, Gerson, olhai por mim pecador
Tomai conta de meus muitos inimigos
Para que eles com nada consigam me atingir

São Gerson, pai de todos os homens
Cuidai para que eu nunca me dê mal
Intercedei frente aos fracos
para que desistam antes do tempo

Gerson nosso, dai-nos força para fingir
Gerson Rei, dai-nos força pra enganar
Gerson Pai, fazei de mim um instrumento
Gerson Deus, fazei de mim sua arma, sua ira e sua vontade

Gerson, que de vosso ensinamento seja eu o arauto
Que de vossa história sejamos nós os maiores defensores
Que ensinai aos ofendidos como nos perdoar
E que os ofendidos ceguem-se ao nos acusar

Oh Gerson, olhai por nós nos momentos mais absurdos,
Gerson, fazei queimar todos aqueles que se coloquem em nosso caminho
São Gerson que estais no céu
Fazei com que possamos continuar levando vantagem em tudo.

Ouvindo: N.A.S.A - O Pato